Resenha: “Um estranho numa terra estranha”, de Robert A. Heinlein

Confira a nossa opinião sobre Um estranho numa terra estranha, ícone literário da ficção científica escrito por Robert A. Heinlein e publicado no Brasil pela editora Aleph.

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Um Estranho Numa Terra Estranha traz a história de Valentine Michael Smith, um humano criado em Marte. Ao ser trazido à Terra, ele entra em contato pela primeira vez com seus iguais e se esforça para entender os costumes, a moral e as regras sociais que definem os estranhos terráqueos. Em meio a diversas barreiras, o homem de Marte se esforça para grokar (termo em marciano, criado pelo autor, com diversos significados, como: beber, sentir, aprender e fazer parte) esse mundo tão alienígena a ele, enquanto procura explicar à humanidade seus próprios conceitos fundamentais, bem como suas concepções de amor e respeito.

Um estranho numa terra estranha é o tipo de livro extenso, que traz uma narrativa não contínua e uma abordagem diversificada.

Nesse romance o leitor vai se deparar com uma grande variedade de tópicos de discussão: desde o amor livre, passando por críticas ao consumismo e até às instituições cristãs. Envolto por sátiras da sociedade na década de 60 e uma pregação autoral cheia de liberdade e abordagem original, Um estranho poderia ter se tornado algo muito melhor se não fosse a mistura desenfreada que é. Mas irei opinar por que.

Durante toda a metade do livro, temos  um enredo extremamente fluido, envolvente e único. Desde a fundamentação da história, onde os humanos trazem Smith (humano nascido em Marte) para a Terra, passando por seu confinamento em um hospital, onde é mantido pelo governo, até a parte que se solta das amarras do governo e adquire sua independência e riqueza com a ajuda de Jubal (advogado, médico, filósofo que se torna um pai para Smith).

De qualquer forma, toda essa saga entre a chegada de Smith na Terra e a conquista de sua liberdade foi muito bem transmitida em um enredo levemente divertido, energético e envolvente de se ler, que consegue instigar o leitor, que é apresentado a uma boa história.

Porém alguns fatos recorrentes durante toda a leitura e a mudança de rumo do enredo a partir da metade do livro diminuíram a qualidade da leitura.

Chega certo ponto na metade do livro, em que a história se torna apenas um amontoado de palavras, e eu não consegui identificar os rumos futuros e nem me satisfazer com o que estava lendo, e infelizmente essa mistura desconexa de fatos tornou a leitura bem pouco instigante e uma verdadeira confusão.

Não culpo o autor por isso, já que durante todas as páginas se consegue ver nitidamente onde Heinlein quer chegar, mas como sabido, o mesmo deu 4 pausas enquanto escrevia Um estranho, e isso talvez tenha mudado sua perspectiva de abordagem, o que torna o enredo não tão fluido.

A partir da metade as longas páginas que seguem se transmutam em um debate cultural e religioso e servem como uma condução lenta e confusa para o real desfecho da história.

O verdadeiro objetivo de Heinlein em Um estranho foi a quebra de paradigmas e indução a formação de opiniões e debates por parte do leitor. Ele quer fazer a gente questionar, discutir.

Realmente o autor traz assuntos bastante interessantes em meio aos diálogos dos personagens que servem para nós mesmos entrar em conflito e pensar em muita coisa, indo desde a abordagens morais, culturais, filosóficas e religiosas (principalmente), onde tudo vai se convergindo em uma grande libertinagem.

Com um cenário bastante curioso e original, o autor consegue conciliá-lo com seus personagens, que apesar de muitos, são intercalados e apresentados de forma concisa, onde assumem uma identidade igualmente divertida e prática, fazendo o leitor gostar dos mesmos. Apenas Smith (personagem principal), se torna um pouco chato em algumas partes, parecendo uma criança mimada, querendo entender tudo, fazer tudo, e com uma inocência bastante incômoda.

Apesar de trabalhar discussões amplas e certeiras em nossa cômoda moral, Heinlein, que demostra querer trazer uma ficção científica tão progressista e liberal, peca de forma vergonhosa ao trazer muitas vezes um tom sexista e machista na obra, juntamente com um separatismo homoafetivo que faz Um estranho falhar em alguns pontos ao querer ser totalmente liberal, mas coibir  alguns assuntos.

Entretanto, Um estranho nos trás uma variedade exemplar de temas a se debater que nos tiram de nossa zona de conforto, onde para toda interpretação sugerida pelo autor, o mesmo semeia indícios que permitem refutá-la. Tudo isso através de um enredo original e bacana de se ler, onde temos todas estas questões morais, filosóficas e religiosas transmutadas em um pano de fundo de ficção científica, juntamente com diálogos completos uma exposição de ideias sucinta.

E para finalizar, posso dizer que a verdadeira mensagem de Um estranho, é que não existe resposta pronta (em qualquer campo que formos tratar), onde é dever de cada um examinar seus próprios preconceitos e, tendo-o feito, formar suas próprias crenças, em plena consciência de que essas também são relativas.

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Informações Gerais:
Editora: Aleph
ISBN9788576573043
Páginas: 569
Ano2016
Autor: Robert A. Heinlein

😉

 

 

 

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