Resenha: “Os homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson, publicado pela Cia das Letras

Um livro em que os poucos defeitos podem ser colocados de lado em face a uma história cuidadosa e dolorosamente bem criada
os-homens-que-nao-amavam-as-mulheresInformações Gerais
Título original: Millennium – The girl with the dragon tattoo 
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535926163
Páginas: 528
Ano: 2015
Autor: Stieg Larsson
Nota Skoob: 4,6

Acredito que um dos gêneros literários mais difíceis de se escrever é o do romance policial. Não se trata apenas uma história de suspense sobre quem é o assassino. O autor precisa criar uma trama que dê embasamento e justifique aquele crime não simplesmente pelo ato de ser, para escrever um livro, mas sim para ter um significado. E neste aspecto importantíssimo, Stieg Larsson com certeza se saiu bem. Não a toa sua trilogia é tida como uma das melhores do gênero e ele próprio, apesar de rápida passagem pela literatura, seja considerado um dos principais nomes do romance policial moderno. A história criada por Larsson nos apresenta Mikael Blomkvist, um jornalista, dono de uma revista, a Millennium, que acaba de ser acusado por difamação em um caso de denúncia contra o rico empresário Wennerström divulgada na publicação. Temendo prejudicar ainda mais a revista, ele se afasta. É quando, misteriosamente, um outro rico empresário, Henrik Vanger, o contrata para uma missão um tanto quanto estranha: conduzir uma investigação particular que visa desvendar o desaparecimento da sobrinha do homem, Harriet Vanger, ocorrida há quase quarenta anos. Uma desafio quase impossível aceito pelo jornalista.

Em outra ponta, somos apresentados a Lisbeth Salander, em suma, uma jovem diferente das demais, mas inteligente e perspicaz acima de tudo. Salander trabalha como detetive em uma agência, de forma bastante discreta. Hacker do nível mais alto, ninguém conhece as técnicas que ela utiliza para invadir e descobrir segredos da vida de muitas pessoas. A vida dela e de Mikael vão se cruzar quando a vítima da hacker é ele. E depois disso, ambos acabarão por formar uma dupla certeira na missão de desvendar o mistério da família Vanger. E uma história policial muita interessante inicia. A sinopse pode ser aprofundada, mas isso certamente estragaria a experiência da leitura, como ocorreu comigo. Quanto menos se sabe, melhor.

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Uma das capas internacionais do livro

De forma geral, o que tenho a dizer sobre Os homens que não amavam as mulheres, o primeiro da trilogia Millennium, é que é um grande livro, escrito minuciosamente com conhecimento de causa e com claras intenções em seu plano de fundo. Mesmo tendo um início lento e às vezes até duvidoso, mas uma metade-final da melhor qualidade, é impossível não ser fisgado pela leitura e pela quase impecável construção e desenvolvimento de Larsson.

O livro aborda vários temas. Passa com uma facilidade que assusta do abuso sexual até trama política. No meio disso tudo, tem espaço para romance, negócios, casos policiais, personalidade problemática, ética e muito mais. É, sem dúvida, um livro repleto de assuntos e temas diferenciados e esta mescla é abordada de uma forma muito bem feita, bastante pensada para tocar em feridas de uma sociedade cada vez mais complexa. Os homens que não amavam as mulheres é um entretenimento criado para discutir assuntos difíceis. É bem claro entender o objetivo deste primeiro livro, e, com certeza, do restante da série.

O livro não é só elogios, embora mereça muitos deles. O início, embora nos apresente uma história que promete bastante, é lento em acontecimentos. Não na escrita, não na leitura. Mas a história não parece fazer muito sentido pois o mistério da trama fica em segundo plano e isso frustra o leitor que comprou o livro como um dos melhores romances policiais dos últimos tempos. No entanto, no momento certo, Stieg Larsson começa a aprofundar a história policial, que ganha de vez a importância necessária no livro. Apesar de alguns rápidos clichês, presentes em todos os livros do gênero, a trama misteriosa penetra no leitor, que não consegue largar as páginas, repletas de viradas e revelações. Entre minhas suspeitas, consegui adivinhar o caso. Parte dele, é verdade. A revelação maior é o que impacta e causa quele momento reflexivo no leitor.

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O autor

Além de nos oferecer uma grande história, o autor ainda nos brinda com grandes personagens. Lisbeth e Miakel não formam apenas uma grande dupla para desvendar um possível assassinato cometido há quase quarenta anos. Os dois, como dupla em cena, são grandes tipos. Mesmo individuais, são personagens bastante reais, que passam aquela verdade que todo leitor gosta. Lisbeth, e todas as suas camadas, com vários elementos de dor e complexidade, encanta e torna o leitor apegado a ela. Inteligente, ela é do tipo antissocial mas que mesmo assim, devido a construção, tem carisma. Além de tudo, temos a problemática família Vanger, que consegue ser adorável em seus conflitos.

Quanto ao trabalho gráfico da Companhia das Letras, não há do que reclamar. O box repaginado da trilogia é harmonioso nas cores e no cuidado interno. A leitura é ágil graças uma escrita de alta qualidade e cuidadosa ao extremo que só um jornalista como Larsson, com tanta vivência de causa, poderia imprimir. Por mais complexo que seja, a leitura é simples e rapidinho o leitor termina. Melhor suspense dos últimos tempos, não tenho medo em dizer que fui surpreendido e já tenho Larsson como grande referência no gênero – desculpe Coben e Rowling. Enfim, o prazer que a leitura e a trama nos dá é inegável, ao mesmo tempo que promove no leitor uma obrigatória reflexão sobre a vida em assuntos do nosso cotidiano, que muitas vezes preferimos ignorar.

Notas 5

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