Resenha: “O último adeus”, de Cynthia Hand, publicado pela DarkSide Books

Bastante ficcional e passando menos verdade do que o necessário, O último adeus ainda é um livro importante para debater o suicídio
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Título original: The last time we say goodbye
Editora: DarkSide Books
ISBN: 9788594540027
Páginas: 352
Ano: 2016
Autor: Cynthia Hand
Nota Skoob: 4,6

Cada pessoa lida com o luto de uma maneira diferente. Mas a de Alexis é certamente uma das mais estranhas. A protagonista de O último adeus tem quase 18 anos, mas age parecendo que tem 13, uma típica adolescente mimada que não amadureceu nem com a trágica perda do irmão. Mas, tirando isso, de forma geral o livro de Cynthia Hand é interessante pelo fato de abrir a discussão sobre suicídio, um assunto que por muito tempo foi encarado como tabu e hoje ainda é visto com desconfianças.

A história acompanha a vida de Alexis, uma jovem de quase 18 anos, como já disse, e seus dramas em relação à perda do irmão, que tirou sua própria vida (prefiro não dizer como para a experiência da leitura ser mais interessante). O livro começa cerca de dois meses depois da morte trágica. E nele vamos acompanhar, essencialmente, a forma como ela lida com o luto, o tratamento dela com um terapeuta e a dor da mãe dos dois.

Apesar do grande hype em torno dele, não tinha grandes expectativa acerca do livro. Então minha certa frustração não pode ser descontada nesta tradicional desculpa. O problema mesmo é a personalidade da protagonista. Como bem disse anteriormente, cada um lida com o luto de uma forma. Mesmo já tendo casos de suicídio próximos de mim, nunca foi em minha família então não posso mensurar a dor. Mas o que a gente acredita é que, apesar desta dor, o luto vem para amadurecer e fortalecer alguns laços e a própria personalidade em si. Aqui isso só acontece nas últimas páginas do livro.

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A autora Cynthia Hand

Acharia muito mais coerente e convincente se o livro se passasse imediatamente após a tragédia e não dois meses depois. Talvez seja justamente por este fato que não dê pra sentir verdade. Pelo tempo em que ocorreu o fato em relação ao tempo em que as coisas vão melhorar – que será só no fim da história. Ter que lidar por mais de 50% da obra com atitudes que beiram a manha por parte de Alexis, é muito chato. Ela passa parte das páginas dizendo que está com dor, mas nos descreve como se sente em relação ao fim de seu namoro ou em relação a outros casos amorosos. Sem tanto problema até aí, mas isso é feito da forma mais adolescente possível.

Além deste fato, há a relação dela com a mãe, que é mais fria do que um gelo. Não consegui identificar se as duas estavam tão afastadas de verdade ou era só na narrativa da protagonista. Mas o que eu esperava dela, de uma filha para uma mãe, seria um apoio e até uma sacudida – já que a mulher estava praticamente vegetando em vida – e só veio a acontecer na reta final. Poxa, essa menina demorou para acordar, hein? A relação dela com o pai, que é separado da mãe, também às vezes soa bastante adolescente, mesmo que o “abandono” tenha ocorrido há vários anos. No entanto, isso se torna um pouco mais verossímil porque ela acredita que este foi um dos gatilhos para o suicídio do irmão.

Mas dos 60% pra frente o livro tem uma guinada. Ele passa a ser aquilo que eu realmente esperava desde o início. Não um “muro de lamentações” mas sim uma mostra de que é possível tentar conviver com esta dor imensurável. Alexis amadurece, parece outra pessoa. Apoia a mãe, deixa de birra com o pai e com o próprio terapeuta. Passa a aceitar os amigos, até então rejeitados injustamente por ela. Até o ex-namorado entra nesta lista, embora isso tenha um peso bastante grande na reta final e grande parte da confusão dela com esse romance passa a fazer sentido.

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A capa original do livro

Vale ressaltar que a autora provavelmente inseriu muito do que aprendeu na vida no livro, uma vez que o irmão dela também se suicidou. Mas ela deixa claro que nada ali – nem Alexis, tampouco Tyler, representam ela ou o irmão. O livro tem bons personagens, embora a maioria bastante raso. O foco realmente foi o suicídio, Alexis e a mãe. Quanto ao trabalho gráfico, não é preciso muitas palavras quando se trata de livro publicado pela DarkSide Books. Trabalho impecável. Capa que faz todo o sentido com o livro. Diagramação muito bem cuidada, com vários elementos que nos remete a um diário, tanto que a escrita é na cor azul, simulando uma caneta “bic”.

Tive sentimentos bastante controversos com O último adeus. Tanto pela forma que foi desenvolvida, quanto pela própria história, que, por mais que apresente problemas, consegue nos tocar e mexer numa ferida da sociedade. Um livro bastante ficcional, que passou menos verdade do que eu esperava e uma mistura de clichês um pouco desnecessários, mas, mesmo assim, na soma geral, um bom livro pela mensagem final. Certamente é de grande utilidade para aqueles que vivem situação parecida, principalmente para entender que a aceitação do fato é mais importante do que buscar motivos e causas. Bem como o livro deixa explicado, a decisão de tirar ou não a própria vida está nas mãos da própria pessoa. Mas, pra mim, a mensagem maior ainda é aquela: se importar com os outros, fazer com que sejam notados, é importante.

Notas 4

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