Divulgado trecho inédito de “O Livro dos Baltimore” de Joël Dicker

Acaba de ser divulgado um trecho do décimo capítulo de O Livro dos Baltimore, de  Joël Dicker, mesmo autor de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert. O Livro dos Baltimore é um lançamento da Intrínseca para janeiro. Confira!

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Mas a felicidade aparente não condizia com a realidade e o dia do Drama marcou o destino fatídico e inesperado de todos aqueles que ele mais amava.

Oito anos depois, Marcus ainda tenta montar o quebra-cabeça do Drama, lidar com as consequências e entender o que aconteceu.

Desencavando o passado, reacendendo paixões e desvendando mistérios, ele decide escrever o próximo romance sobre sua família, numa tentativa de se libertar de antigos ressentimentos e redimir aqueles que foram punidos pelos infortúnios da vida.

Rivalidade, traição, sucesso, paixão e inveja: abordando temas presentes na vida de todos nós, Joël Dicker constrói brilhantemente o retrato de uma juventude, destacando a força do destino e a fragilidade de nossas maiores conquistas.

Leia um trecho!

Coconut Grove, Flórida.

Junho de 2010. Seis anos após o Drama.

Assim que eu chegava, passava no supermercado para almoçar com o tio Saul. Nós nos sentávamos num dos bancos ao ar livre, em frente à loja, e ali comíamos um sanduíche de maionese com frango acompanhado de uma latinha de Dr. Pepper.

Faith Connors, a gerente do Whole Foods, costumava ir me cumprimentar.

Era uma mulher adorável. Tinha cinquenta e poucos anos, era solteira e, pelo que pude notar, gostava muito do meu tio Saul. Ela costumava se sentar com a gente para fumar um cigarro. Às vezes, em consideração à minha presença na Flórida, dava um dia de folga ao meu tio para que pudéssemos desfrutar da companhia um do outro. Foi o que ela fez nesse dia.

– Saiam daqui vocês dois –disse ela, se aproximando do banco.

– Tem certeza? –perguntou tio Saul.

– Absoluta.

Não nos fizemos de desentendidos. Dei dois beijos na bochecha de Faith e ela riu, observando a gente se afastar.

Atravessamos o estacionamento até chegar aos nossos carros. Tio Saul se aproximou do seu, estacionado ali perto. Seu velho e desgastado Honda Civic comprado numa promoção.

– O meu está ali –falei.

– Podemos dar uma volta, se quiser.

– Eu adoraria. O que está com vontade de fazer?

– O que acha de ir a Bal Harbor? Isso vai me lembrar de quando a gente passeava com sua tia.

– Para mim, está ótimo. Nós nos encontramos em casa. Então posso deixar meu carro lá.

Antes de entrar, ele deu alguns tapinhas no carro, sorrindo.

– Lembra, Markie? Sua mãe tinha um igual.

Ele arrancou, e eu o observei se afastar, antes de manobrar meu Range Rover, que valia –eu tinha feito a conta– cinco anos do salário anual do meu tio.

Na época de glória, os Goldman­de­Baltimore gostavam de ir a Bal Harbor, um bairro chique no norte de Miami. Lá havia um shopping a céu aberto composto unicamente de lojas de luxo. Meus pais tinham horror àquele lugar, mas me deixavam ir com meus tios e primos. Ao me acomodar no banco de trás do carro deles, eu redescobria aquelas sensações de insolente felicidade que experimentava quando estava sozinho com eles. Eu me sentia bem, me sentia um Baltimore.

– Lembra quando vínhamos aqui? –perguntou tio Saul, ao chegarmos ao estacionamento do shopping.

– Claro.

Estacionei meu carro e perambulamos ao redor dos tanques que haviam no primeiro andar, onde nadavam tartarugas marinhas e enormes carpas chinesas que, antigamente, hipnotizavam Hillel, Woody e a mim.

Compramos copinhos de café e nos sentamos num banco, observando as pessoas circularem. Olhando o tanque à nossa frente, lembrei a tio Saul uma ocasião em que cismamos de pegar uma tartaruga e Hillel, Woody e eu acabamos caindo na água. Ele gargalhou com a minha história e sua risada me fez bem. Era sua risada de antes. Uma risada forte, poderosa, feliz. Eu me lembrei dele quinze anos antes, usando roupas caras, percorrendo as lojas desse mesmo shopping de braço dado com Anita, enquanto nós, a Gangue dos Goldman, aprontávamos nas pedras artificiais dos tanques. Sempre que volto a esse lugar, relembro minha tia Anita, sua beleza sublime, sua ternura maravilhosa. Ouço sua voz, a maneira com que passava a mão em meu cabelo. Revejo o brilho de seus olhos, sua boca delicada. O jeito carinhoso com que ela segurava a mão de tio Saul, seus gestos atenciosos, os beijos discretos que dava na sua bochecha.

Será que, durante a infância, eu quis trocar meus pais por Saul e Anita Goldman? Sim. E sem ser desleal com meus genitores, posso afirmar isso. Esse pensamento, na realidade, foi o primeiro ato de violência que cometi contra meus pais. Por muito tempo, acreditei que tinha sido o mais carinhoso dos filhos. No entanto, eu era malcriado quando sentia vergonha deles. E esse momento logo chegou: foi no inverno de 1993 que, durante nossas tradicionais férias na Flórida, me dei conta da superioridade do tio Saul. Foi logo depois que meus avós haviam decidido sair do apartamento de Miami e irem para um asilo na cidade de Aventura. Vendido o apartamento, o acampamento dos Goldman todos ­juntos não podia mais continuar. Quando minha mãe me comunicou o fato, a primeira coisa em que pensei foi que nunca mais voltaríamos à Flórida. Mas ela me tranquilizou:

– Markie, querido, ficaremos em um hotel. Não vai mudar absolutamente nada.

Na verdade, mudou absolutamente tudo.

Houve uma idade em que nos contentávamos com o condomínio residencial onde meus avós moravam. Durante vários anos, para nós só existiam o acampamento na sala, as brincadeiras de pique­-pega pelos corredores do prédio, a piscina um pouco suja, o pequeno restaurante imundo, e não precisávamos de mais nada. Para ir à praia era só atravessar a rua e, bem ao lado, havia um shopping imenso que nos oferecia mil opções nos dias de chuva. Isso bastava para nos deixar felizes. Para Hillel, Woody e para mim só importava estarmos juntos.

Depois da mudança, tivemos que nos reorganizar. Tio Saul passara por anos muito prósperos: suas consultorias eram pagas a peso de ouro. Então comprou um apartamento num condomínio de luxo em West Country Club Drive, chamado Buenavista, o que subverteu completamente minha escala de referência. O Buenavista era um complexo que abrangia um edifício com trinta andares de apartamentos e oferecia serviço de hotelaria, uma gigantesca academia, mas, sobretudo, uma piscina como eu nunca vira, cercada de palmeiras, com quedas­-d’água, pequenas ilhas artificiais e dois cursos de água serpenteando como um rio em meio a uma densa vegetação. Um bar para servir os banhistas fora escavado no solo, oferecendo, à sombra de um teto de palha, um balcão no nível da água com assentos fixados na piscina. Ainda havia outro bar, tradicional, que funcionava numa cabana e atendia os clientes do terraço, e, bem ao lado, um restaurante para uso exclusivo dos moradores do condomínio. Local estritamente privado, o único acesso ao Buenavista era um portão que ficava fechado vinte e quatro horas por dia e só abria se a pessoa mostrasse uma credencial ao segurança da guarita que portava um cassetete.

Eu era completamente fascinado por aquele lugar. Ali descobri um mundo maravilhoso, no qual podíamos circular com total liberdade, do apartamento do vigésimo sexto andar à piscina com toboágua ou à academia, onde Woody malhava. Um único dia em Buenavista apagou de uma tacada só todos os anos passados na Flórida até então. Claro que as condições de estada que o limitado orçamento dos meus pais nos impunha imediatamente sofreram comparação. Eles arranjaram uma pousada ali perto, a Dolph’Inn. Tudo naquele lugar me desagradava: os quartos antigos, o café da manhã servido num cubículo ao lado da recepção, onde mesas de plástico eram dispostas todas as manhãs, ou até mesmo a piscina em forma de um caroço de feijão atrás do prédio, cuja água tinha tanto cloro que bastava andar na beirada para ficar com os olhos e a garganta ardendo. Além do mais, para economizar, meus pais reservavam apenas um quarto: eles dormiam na cama de casal e eu, numa cama de armar ao lado deles. Eu me lembro do momento de hesitação da minha mãe em cada um daqueles invernos que passamos ali, quando ocupávamos o quarto. Ela abria a porta e certamente considerando aquele quarto lúgubre, assim como eu, fazia uma pequena pausa para em seguida, recuperando­-se prontamente, colocar a mala no chão, acender a luz e bater as almofadas da cama, de onde caía uma nuvem de poeira. Então ela comentava:

– Estamos bem aqui, não?

Não, não estávamos bem ali. Não por causa da pousada, nem da cama de armar, nem dos meus pais. Mas por causa dos Goldman­-de­-Baltimore.

Não perca tempo e garanta já o seu. O Livro dos Baltimore já se encontra em pré-venda.

Fonte: Folha de S. Paulo

Paulo

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