Conheça “Coração de Aço”, novo livro da Aleph, de Brandon Sanderson

Considerado um dos livros mais divertidos de Brandon Sanderson, Coração de Aço alcançou o topo da lista de mais vendidos do The New York Times e teve seus direitos de adaptação para o cinema adquiridos pela Fox.

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O livro é o primeiro volume da saga Executores, seguido por Tormenta de Fogo e Calamidade, e já está em pré-venda em alguns sites brasileiros. O lançamento oficial está marcado para a segunda quinzena de novembro.

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Na trama, misteriosamente, várias pessoas recebem superpoderes, mas são corrompidas por eles e tornam-se vilões cruéis. Após tomarem o controle das cidades para si, eles criam uma nova realidade distópica, submetendo os humanos a uma vida de servidão.

Isso aconteceu há dez anos, quando David viu seu pai ser morto por Coração de Aço, ditador de Nova Chicago. Agora, ele se dedica a estudar as fraquezas desse e de outros supervilões, planejando fazer parte do misterioso grupo dos Executores, pessoas comuns com a ousada missão de matar os tiranos um a um.

Leia abaixo o prólogo do livro:

Eu já vi Coração de Aço sangrar.

Foi há dez anos; eu tinha oito. Meu pai e eu estávamos no Banco da União na rua Adams. Usávamos os nomes antigos das ruas naquela época, antes da Anexação.

O banco era enorme. Uma única câmara aberta com pilares brancos que cercavam um piso de azulejos em mosaico, e portas largas que levavam ao interior do prédio. Duas grandes portas giratórias davam para a rua, e havia um par de portas normais dos lados. Homens e mulheres jorravam para dentro e para fora, como se a sala fosse o coração de alguma criatura enorme, pulsando com uma força vital de pessoas e dinheiro.

Eu estava ajoelhado, apoiado sobre as costas de uma cadeira grande demais para mim, observando o fluxo de pessoas. Eu gostava de observar as pessoas. Os diferentes formatos dos rostos, os penteados, as roupas, as expressões. Todo mundo tinha tanta variedade naquela época. Era fascinante.

– David, vire-se, por favor – meu pai pediu. Ele tinha uma voz suave. Eu nunca o ouvi falar alto, exceto uma vez, no funeral da minha mãe. Lembrar sua agonia naquele dia ainda me causa arrepios.

Eu me virei, emburrado. Estávamos na lateral da câmara principal do banco, em uma das baias onde os homens da hipoteca trabalhavam. Embora a baia onde estávamos tivesse divisórias de vidro, o que a tornava menos apertada, ainda parecia falsa. Na parede, havia pequenas fotos de membros da família em molduras de madeira; na mesa, uma xícara cheia de balas baratas, coberta com uma tampa de vidro; e, em cima de um arquivo, um vaso com flores de plástico desbotadas.

Era uma imitação de uma casa confortável. Assim como o homem à nossa frente exibia a imitação de um sorriso.

– Se tivéssemos mais garantia… – o homem da hipoteca disse, mostrando os dentes.

– Tudo o que tenho está aí – meu pai afirmou, indicando o papel à nossa frente na mesa. Suas mãos tinham calos grossos e sua pele era queimada dos dias trabalhando sob o sol. Minha mãe se sentiria horrorizada se o visse numa reunião chique como aquela usando os jeans de trabalho e uma camiseta velha com um personagem de quadrinhos.

Pelo menos ele havia penteado o cabelo, embora os fios começassem a cair. Meu pai não se importava com isso tanto quanto os outros homens pareciam se importar. “Só quer dizer que vou precisar de menos cortes, Dave”, ele me dizia, rindo enquanto passava os dedos pelo cabelo ralo. Eu não comentava que ele estava errado. Ele ainda precisaria do mesmo número de cortes, pelo menos até que todos os fios caíssem.

– Realmente não sei se podemos fazer algo quanto a isso – o homem da hipoteca disse. – O senhor já foi informado antes.

– O outro homem falou que seria suficiente – meu pai respondeu, com as mãos grandes entrelaçadas à sua frente. Ele parecia preocupado. Muito preocupado.

O homem da hipoteca só continuava sorrindo. Então, bateu um dedo na pilha de papéis em sua mesa.

– O mundo é um lugar bem mais perigoso agora, sr. Charleston. O banco decidiu que é melhor não correr riscos.

– Perigoso? – meu pai perguntou.

– É, o senhor sabe, os Épicos…

– Mas eles não são perigosos – meu pai afirmou, inflamado. – Os Épicos estão aqui para ajudar.

Isso de novo não, pensei.

O sorriso do homem da hipoteca finalmente vacilou, como se ele tivesse se espantado com o tom do meu pai.

– Você não entende? – meu pai perguntou, curvando-se para a frente. – Não são tempos perigosos. São tempos maravilhosos!

O homem da hipoteca inclinou a cabeça.

– A sua antiga casa não foi destruída por um Épico?

– Onde existirem vilões, existirão heróis – meu pai disse. — Aguarde. Eles virão.

Eu acreditava nele. Na época, muitas pessoas pensavam como ele. Só fazia dois anos desde que Calamidade tinha aparecido no céu. Um ano desde que homens comuns começaram a mudar. A se transformar em Épicos – quase como os super-heróis das histórias.

Nós ainda éramos esperançosos naquela época. E ignorantes.

– Bem – disse o homem da hipoteca, unindo as mãos sobre a mesa, logo ao lado de uma moldura com uma foto, tirada em um estúdio, de crianças sorridentes de diferentes etnias. – Infelizmente, nossa seguradora não concorda com a sua avaliação. O senhor terá que…
Eles continuaram a falar, mas eu parei de prestar atenção. Deixei meus olhos se voltarem para a multidão e me virei de novo, ajoelhado na cadeira. Meu pai estava concentrado demais na conversa para brigar comigo por isso.

E assim eu vi o momento exato em que o Épico entrou no banco. Notei-o imediatamente, embora mais ninguém parecesse prestar muita atenção. A maioria das pessoas diz que é impossível distinguir um Épico de um homem comum, a não ser que ele comece a usar seus poderes, mas elas estão erradas. Os Épicos se movem de um jeito diferente. Aquele senso de confiança, aquela autossatisfação sutil. Eu sempre fui capaz de identificá-los.

esmo sendo criança, sabia que havia algo diferente naquele homem. Ele usava um largo terno de negócios preto com uma camisa bege-claro por baixo, sem gravata. Era alto e magro, mas sólido, como muitos dos Épicos. Musculoso e tonificado de um jeito que era possível ver mesmo através das roupas largas.

Ele foi direto para o centro da sala. O homem trazia óculos de sol pendurados no bolso do terno e sorriu enquanto os colocava. Então, ergueu um dedo e apontou com um gesto casual para uma mulher que passava.

Ela foi vaporizada até virar poeira; suas roupas se queimaram e o esqueleto caiu para a frente, esparramando-se e fazendo barulho. Seus brincos e a aliança de casamento, porém, não se dissolveram. Os objetos atingiram o chão com pings distintos, que consegui ouvir mesmo com todo o ruído no banco.

A sala caiu em silêncio. As pessoas congelaram, horrorizadas. As conversas pararam, embora o homem da hipoteca continuasse falando, passando um sermão no meu pai.
Ele finalmente engasgou quando os gritos começaram.

Não lembro como me senti. Não é estranho? Consigo me lembrar das luzes – aqueles lustres magníficos acima de nós, iluminando a câmara com pequenas porções de luz. Consigo me lembrar do aroma de limão e amônia do chão recém-lavado. Consigo me lembrar muito bem dos gritos agudos de terror, da barulheira insana enquanto as pessoas corriam para as portas.

Mais do que tudo, eu me lembro do Épico abrindo um sorriso largo – quase malicioso – enquanto apontava para as pessoas que passavam, reduzindo todas elas a cinzas e ossos com um mero gesto.

Eu estava hipnotizado. Talvez estivesse em choque. Apertava as costas da cadeira, observando a matança com olhos esbugalhados.

Algumas pessoas perto das portas escaparam. Qualquer um que se aproximasse do Épico morria. Vários funcionários e clientes se encolhiam em grupos no chão ou se escondiam atrás de mesas. Estranhamente, a sala ficou silenciosa. O Épico estava parado como se não houvesse mais ninguém ali; folhas de papel flutuando pelo ar, ossos e cinzas negras espalhadas no chão ao seu redor.

– Eu sou Dedo da Morte – ele disse. – Não é um nome muito criativo, admito. Mas eu acho memorável. – Sua voz era sinistramente natural, como se ele estivesse batendo um papo com os amigos num bar.

O Épico começou a andar pela sala.

– Tive um pensamento esta manhã – ele falou. A sala era tão grande que sua voz ecoava. – Estava tomando banho, e ele me veio à cabeça. Perguntou: “Dedo da Morte, por que você vai roubar um banco hoje?”.

Ele apontou preguiçosamente para dois seguranças que haviam se esgueirado de um corredor lateral ao lado das baias de hipoteca. Os seguranças viraram poeira, e seus distintivos, a fivela dos cintos, as armas e os ossos atingiram o chão. Pude ouvir os ossos batendo uns contra os outros enquanto caíam. Há muitos ossos no corpo de um homem, mais do que eu imaginava, e eles faziam uma grande bagunça quando se esparramavam. Um detalhe estranho para notar sobre aquela cena horrível. Mas me lembro disso claramente.

Uma mão apertou meu ombro. Meu pai se agachara atrás da sua cadeira e tentava me puxar para baixo, para que o Épico não me visse. Mas eu não me movi, e meu pai não podia me obrigar sem chamar atenção para nós.

– Venho planejando isso há semanas, sabem? – disse o Épico. — Mas o pensamento só me ocorreu esta manhã. Por quê? Por que roubar o banco? Eu posso pegar qualquer coisa que quiser, mesmo! É ridículo! – Ele pulou para o interior de um balcão, fazendo a funcionária do caixa escondida lá gritar. Eu podia vê-la encolhendo-se no chão.

– Dinheiro é inútil para mim, sabem? – o Épico continuou. — Completamente inútil. – Ele apontou. A mulher murchou até se tornar cinzas e ossos.

O Épico girou, apontando para vários lugares na sala, matando pessoas que tentavam fugir. Por último, apontou na minha direção.

Finalmente, eu senti algo. Uma pontada de terror.

Um crânio atingiu a mesa atrás de nós, quicando e espalhando cinzas enquanto caía no chão. O Épico não tinha apontado para mim, mas para o homem da hipoteca, que estivera escondido ao lado de sua mesa, atrás de mim. Será que o homem havia tentado escapar?
O Épico se virou de novo para os caixas atrás do balcão. A mão do meu pai apertou meu ombro, tensa. Eu sentia a preocupação dele por mim quase como uma coisa física, fluindo por seu braço e passando para o meu.

Então, eu senti terror. Terror puro e imobilizador. Eu me encolhi na cadeira, choramingando, tremendo, tentando banir da minha mente as imagens das mortes terríveis que acabara de presenciar.

Meu pai afastou a mão.

– Não se mova – ele articulou em silêncio.

Assenti com a cabeça, assustado demais para fazer qualquer outra coisa. Meu pai olhou pela lateral da cadeira. Dedo da Morte conversava com um dos caixas. Embora não pudesse vê-los, eu conseguia ouvir quando os ossos caíam. Ele os executava, um de cada vez.
A expressão do meu pai se tornou sombria. Então, ele olhou para um corredor lateral. Uma saída?

Não. Era onde os guardas haviam caído. Através do vidro da baia, eu podia ver um revólver caído no chão, o cano soterrado de cinzas, parte do cabo tombado acima de uma costela. Meu pai a olhou. Ele servira na Guarda Nacional quando era jovem.

Não faça isso!, pensei, em pânico. Pai, não! Mas eu não conseguia pronunciar as palavras. Meu queixo tremia enquanto tentava falar, como se sentisse frio, e meus dentes batiam. E se o Épico me ouvisse?

Eu não podia deixar meu pai fazer uma coisa tão tola! Ele era tudo o que eu tinha. Sem casa, sem família, sem mãe. Quando ele parecia prestes a se mover, forcei-me a estender uma mão e agarrar o seu braço. Sacudi a cabeça, tentando pensar em qualquer coisa que o faria parar.

– Por favor – consegui sussurrar. – Os heróis. Você disse que eles viriam. Deixe eles cuidarem disso!

– Às vezes, filho – meu pai disse, abrindo minha mão –, você tem que dar uma ajuda aos heróis.

Ele olhou para Dedo da Morte, então engatinhou rapidamente para a baia do lado. Prendi a respiração e espiei com cuidado pelo lado da cadeira. Eu precisava saber. Mesmo apavorado e tremendo, precisava ver o que aconteceria.

Dedo da Morte pulou sobre o balcão e caiu do outro lado. Do nosso lado.

– Por isso, não importa – ele disse, ainda naquele tom casual, andando calmamente pela sala. – Roubar um banco me daria dinheiro, mas eu não preciso comprar coisas. – Ele ergueu um dedo assassino. — Um dilema. Felizmente, enquanto tomava banho, percebi outra coisa: matar pessoas toda vez que você quer algo pode ser extremamente inconveniente. O que eu precisava fazer era assustar todo mundo, mostrar o meu poder. Assim, no futuro, ninguém me negaria aquilo que eu quisesse tomar.

Ele girou ao redor de um pilar do outro lado do banco, surpreendendo uma mulher que segurava o filho.

– Sim – o Épico continuou –, roubar um banco pelo dinheiro não teria sentido. Mas mostrar o que eu posso fazer… isso ainda é importante. Então, continuei com o meu plano. – Ele apontou, matando a criança e deixando a mulher horrorizada segurando uma pilha de ossos e cinzas. – Vocês não estão felizes por isso?

Eu encarei a cena, a mulher aterrorizada tentando abraçar o cobertor enquanto os ossos da criança se moviam e escapavam. Naquele momento, tudo se tornou muito mais real para mim. Horrivelmente real. De repente me senti enjoado.

As costas de Dedo da Morte estavam viradas para nós.

Meu pai correu para fora da baia e agarrou a arma caída. Duas pessoas escondidas atrás de um pilar perto de nós correram até a saída mais próxima e, na pressa, empurraram meu pai, quase o derrubando.

Dedo da Morte se virou. Meu pai ainda estava ajoelhado lá, tentando erguer o revólver, os dedos escorregando no metal coberto de cinzas.

O Épico ergueu a mão.

– O que você está fazendo aqui? – uma voz retumbou.

O Épico se virou. Eu também. Acho que todos devem ter se voltado para aquela voz profunda e poderosa.

Uma figura estava em pé na porta que dava para a rua. Ele estava iluminado por trás, e era pouco mais que uma silhueta em virtude da luz do sol que brilhava atrás dele. Uma silhueta incrível, hercúlea, imponente.

Você provavelmente já viu fotos de Coração de Aço, mas deixe-me dizer que fotos são completamente inadequadas. Nenhuma fotografia, nem vídeo ou pintura jamais poderia capturar aquele homem. Ele usava preto. Uma camiseta justa sobre um físico inumanamente largo e forte. Calça solta, mas não folgada. Não usava máscara, como alguns dos primeiros Épicos, mas uma capa prateada magnífica flutuava atrás dele.

O homem não precisava de uma máscara. Não tinha motivo para se esconder. Ele estendeu os braços ao lado do corpo, e o vento escancarou as portas ao seu redor. Cinzas se espalharam pelo chão, e papéis se agitaram. Coração de Aço elevou-se alguns centímetros no ar, a capa esvoaçando. Então, começou a deslizar para a frente, para dentro da sala. Braços como vigas de aço, pernas como montanhas, o pescoço como um tronco de árvore. Mas ele não era volumoso nem desengonçado. Era majestoso, com aquele cabelo negro, a mandíbula quadrada, um físico impossível, e uma figura de mais de dois metros.

E aqueles olhos. Intensos, exigentes, inflexíveis.

Quando Coração de Aço voou graciosamente para dentro do banco, Dedo da Morte logo ergueu um dedo e apontou-o para ele. Uma pequena parte da camisa de Coração de Aço chiou, como se um cigarro fosse apagado no tecido, mas ele não mostrou qualquer reação. Em vez disso, flutuou, descendo os degraus, e aterrissou no chão a uma pequena distância de Dedo da Morte, sua enorme capa assentando-se ao seu redor.

Dedo da Morte apontou de novo, parecendo frenético. Outro mísero chiado. Coração de Aço deu alguns passos até o Épico menor, se impondo sobre ele.

Eu sabia naquele momento que era isso que meu pai vinha esperando. Esse era o herói que todos esperavam que surgisse, o herói que compensaria os outros Épicos e seus modos malignos. Aquele homem estava ali para nos salvar.

Coração de Aço estendeu uma mão, agarrando Dedo da Morte quando ele tentou escapar, já tarde demais. Dedo da Morte parou de repente. Seus óculos caíram no chão e ele puxou o ar dolorosamente.

– Eu fiz uma pergunta – Coração de Aço disse numa voz como o ribombo de um trovão. Ele virou Dedo da Morte para encará-lo nos olhos. – O que você está fazendo aqui?
Dedo da Morte estremeceu. Ele parecia em pânico.

– Eu… Eu…

Coração de Aço ergueu a outra mão, levantando um dedo.

– Eu reivindiquei esta cidade, Epicozinho. Ela é minha. – Ele parou. – E é o meu direito dominar as pessoas daqui, não o seu.

Dedo da Morte inclinou a cabeça. O quê?, eu pensei.

– Você parece ter força, Epicozinho – Coração de Aço disse, olhando os ossos esparramados pela sala. – Eu aceitarei sua subserviência. Dê-me sua lealdade ou morra.

Eu não conseguia acreditar nas palavras de Coração de Aço. Elas me chocaram tanto quanto os assassinatos de Dedo da Morte.

Aquele conceito – sirva ou morra – se tornaria a fundação do governo dele. O Épico olhou ao redor da sala e falou numa voz retumbante:

– Eu sou o imperador desta cidade agora. Vocês irão me obedecer. Eu sou o dono desta terra. Eu sou o dono destes prédios. Quando vocês pagam impostos, eles vêm para mim. Se desobedecerem, morrerão.

Impossível, eu pensei. Ele também não. Eu não conseguia aceitar que esse ser incrível era igual aos outros.

Eu não era o único.

–  Não deveria ser assim – meu pai disse.

Coração de Aço se virou, aparentemente surpreso por ouvir algo vindo de algum dos peões encolhidos e lamuriantes no recinto.

Meu pai deu um passo à frente, a arma abaixada ao seu lado.

– Não – ele disse. – Você não é como os outros. Eu posso ver. Você é melhor que eles. – Ele continuou andando, parando a apenas alguns passos dos dois Épicos. – Você está aqui para nos salvar.

O cômodo estava em silêncio, exceto pelos soluços da mulher que ainda se agarrava aos restos do filho morto. Em vão, ela tentava loucamente reunir os ossos, não deixar nem uma pequena vértebra no chão. Seu vestido estava coberto de cinzas.

Antes que qualquer um dos Épicos pudesse responder, as portas laterais se escancararam. Homens de armadura preta e rifles de assalto correram para dentro do banco e abriram fogo.

Naquela época, o governo ainda não tinha desistido. Eles continuavam lutando contra os Épicos, tentando submetê-los às leis dos mortais. Ficou claro desde o começo que, quando se tratava dos Épicos, você não hesitava, não negociava. Entrava atirando e esperava que o Épico que estivesse enfrentando pudesse ser morto por balas comuns.

Meu pai se afastou correndo, os antigos instintos de batalha levando- o a pôr as costas contra um pilar perto da entrada do banco. Coração de Aço virou com uma expressão desdenhosa enquanto uma salva de balas caía sobre ele. Elas ricochetearam na sua pele, rasgando-lhe as roupas, mas deixando o homem completamente ileso.

Foram Épicos como ele que forçaram os Estados Unidos a aprovarem o Ato da Capitulação, que conferiu a todos os Épicos imunidade completa contra a lei. Armas de fogo não podem ferir Coração de Aço — projéteis, tanques, as armas mais avançadas da humanidade nem chegam a arranhá-lo. Mesmo que ele fosse capturado, as prisões não conseguiriam segurá-lo.

O governo por fim declarou que homens como Coração de Aço eram forças da natureza, como furacões ou terremotos. Tentar dizer a Coração de Aço que ele não podia tomar o que queria seria tão inútil quanto aprovar uma lei que proibisse o vento de soprar.

Naquele dia no banco, eu vi com meus próprios olhos por que tantas pessoas decidiram não resistir. Coração de Aço ergueu uma mão, e energia começou a brilhar ao redor dela com uma fria luz amarela. Dedo da Morte escondeu-se atrás dele, protegendo-se das balas. Ao contrário de Coração de Aço, ele parecia temer levar um tiro. Nem todos os Épicos são impenetráveis a armas de fogo, só os mais poderosos.

Coração de Aço soltou uma explosão de energia amarelo-esbranquiçada da mão, vaporizando um grupo de soldados. Seguiu-se o caos. Soldados se abaixaram procurando refúgio em qualquer lugar que encontrassem; fumaça e lascas de mármore encheram o ar. Um dos militares atirou algum tipo de projétil da sua arma, e ele passou por Coração de Aço – que continuava a explodir seus inimigos com energia – e atingiu a parte de trás do banco, abrindo o cofre.

Notas flamejantes explodiram para dentro do recinto. Uma chuva de moedas cobriu o chão.
Gritos. Choro. Insanidade.

Os soldados morreram rápido. Eu continuei encolhido na cadeira, tampando as orelhas com as mãos. Era tudo tão alto.

Dedo da Morte continuava de pé atrás de Coração de Aço. Enquanto eu observava, ele riu, então ergueu as mãos até o pescoço de Coração de Aço. Não sei o que planejava fazer. Provavelmente possuía um segundo poder. A maioria dos Épicos tão fortes quanto ele possui mais de um.

Talvez fosse suficiente para matar Coração de Aço. Eu duvido; de qualquer forma, nunca saberemos.

Um único pop soou no ar. A explosão foi tão alta que me deixou ensurdecido a ponto de eu mal reconhecer o som de uma arma. Quando a fumaça da explosão se dissipou, pude ver meu pai. Ele estava de pé a uma curta distância de Coração de Aço, com os braços erguidos e as costas contra o pilar. Sua expressão era de determinação, e ele segurava a arma, apontando-a para Coração de Aço.

Não. Não para Coração de Aço. Para Dedo da Morte, que estava logo atrás dele.
Dedo da Morte desabou com um buraco de bala na testa. Morto. Coração de Aço se virou bruscamente para olhar o Épico menos poderoso. Então, olhou de volta para o meu pai e ergueu uma mão para o próprio rosto. Ali, logo abaixo de seu olho, havia uma linha de sangue.

Primeiro pensei que fosse de Dedo da Morte. Mas, quando Coração de Aço o limpou, o ferimento continuou a sangrar.

Meu pai havia atirado em Dedo da Morte, mas a bala tinha passado por Coração de Aço primeiro – e o raspara no caminho.

A bala tinha ferido Coração de Aço, enquanto as armas dos soldados haviam só ricocheteado nele.

– Desculpe – meu pai disse, parecendo nervoso. – Ele ia atacar você. Eu…

Coração de Aço arregalou os olhos e ergueu a mão à sua frente, olhando para o próprio sangue. Ele parecia completamente chocado. Olhou de relance para o cofre atrás dele, então para o meu pai. No cenário de fumaça e poeira, as duas figuras se encararam – o primeiro, um Épico enorme e majestoso; o outro, um homem sem-teto usando uma camiseta boba e jeans desbotados.

Coração de Aço pulou para a frente a uma velocidade ofuscante e esmurrou a mão contra o peito do meu pai, empurrando-o contra o pilar de pedra branca. Ossos se quebraram, e sangue verteu da boca dele.

– Não! – eu gritei. Minha própria voz soava estranha aos meus ouvidos, como se eu estivesse debaixo d’água. Eu queria correr até ele, mas estava assustado demais. Ainda penso na minha covardia naquele dia e me sinto enjoado.

Coração de Aço deu um passo para o lado e apanhou a arma que meu pai tinha soltado. Fúria queimava em seus olhos, e Coração de Aço apontou a arma diretamente para o peito do meu pai, então deu um único tiro no homem já caído.

Ele faz isso. Coração de Aço gosta de matar as pessoas com suas próprias armas. Tornou-se uma de suas marcas pessoais. Ele tem força incrível e consegue atirar rajadas de energia das mãos. Mas, quando vai matar alguém que considera digno de atenção especial, prefere usar a arma da pessoa.

Coração de Aço deixou meu pai deslizando pelo pilar e jogou o revólver aos seus pés. Então, começou a atirar jatos de energia em todas as direções, ateando fogo em cadeiras, paredes, balcões, tudo. Fui jogado da minha cadeira quando uma das rajadas atingiu um ponto perto de mim, e rolei para o chão.

As explosões jogaram madeira e vidro para o ar, balançando o recinto. No intervalo de apenas algumas batidas do coração, Coração de Aço causara destruição suficiente para fazer a onda de assassinatos de Dedo da Morte parecer moderada. O Épico destruiu completamente aquela sala, derrubando pilares e matando todos que via. Não tenho certeza de como sobrevivi, engatinhando sobre cacos de vidro e lascas de madeira, argamassa e poeira chovendo ao meu redor.

Coração de Aço soltou um grito de raiva e indignação. Eu mal conseguia ouvi-lo, mas pude senti-lo estourar as janelas que restavam e fazer as paredes vibrarem. Então, algo se propagou a partir dele, uma onda de energia. E o chão ao seu redor mudou de cor, transformando-se em metal.

A transformação se espalhou, inundando a sala inteira a uma velocidade incrível. O chão sob mim, a parede ao meu lado, os cacos de vidro no chão – tudo virou aço. O que sabemos hoje é que a raiva de Coração de Aço transforma objetos inanimados ao seu redor em aço, embora não afete as coisas vivas e o que estiver próximo a elas.

Quando seu grito terminou, a maior parte do interior do banco tinha se transformado completamente em aço, embora um grande pedaço de teto ainda fosse de madeira e argamassa, assim como uma parte de uma parede. Coração de Aço subitamente se lançou para o alto, quebrando o teto e vários andares para emergir no céu.

Eu cambaleei até o meu pai, esperando que ele pudesse fazer algo, de alguma forma parar aquela loucura. Quando o alcancei, ele estava tendo espasmos. Sangue cobria o seu rosto e jorrava do ferimento de bala no seu peito. Agarrei o seu braço, em pânico.

Incrivelmente, ele conseguiu falar, mas eu não era capaz de ouvir o que dizia. Estava completamente surdo a essa altura. Meu pai estendeu uma mão trêmula e tocou o meu queixo. Ele disse mais alguma coisa, mas eu ainda não conseguia ouvi-lo.

Enxuguei os olhos com a manga da minha blusa, então puxei o seu braço para fazê-lo se levantar e vir comigo. O prédio inteiro tremia.

Meu pai agarrou o meu ombro, e eu olhei para ele, com lágrimas nos olhos. Ele falou uma única palavra – uma palavra que pude distinguir pelo movimento dos seus lábios.

– Vá.

Eu entendi. Algo enorme acabara de acontecer, algo que expôs Coração de Aço, algo que o aterrorizou. Ele era um Épico novo naquela época, não muito conhecido na cidade, mas eu já ouvira falar dele. Supostamente, era invulnerável.

Aquele tiro o ferira, e todo mundo ali tinha visto sua fraqueza. Ele não nos deixaria viver de jeito nenhum – precisava preservar seu segredo.

Com lágrimas escorrendo pelo rosto, sentindo-me um covarde completo por abandonar o meu pai, virei-me e corri. O prédio continuou a tremer com explosões; paredes racharam, seções do teto desabaram. Coração de Aço tentava derrubá-lo.

Algumas pessoas correram para as portas de entrada, mas Coração de Aço as matou do alto. Outras correram para as portas laterais, mas aquelas saídas só levavam para dentro do banco. Essas pessoas foram esmagadas quando a maior parte do prédio desabou.

Eu me escondi no cofre.

Gostaria de dizer que fui esperto por fazer essa escolha, mas eu apenas me virei e corri. Vagamente me lembro de engatinhar até um canto escuro e me encolher em posição fetal, chorando enquanto o resto do prédio desmoronava. Como a maior parte da sala principal tinha sido transformada em metal pela raiva de Coração de Aço, e o cofre já era de aço, essas áreas não ruíram como o resto do prédio.

Horas depois, fui tirado dos destroços por uma socorrista de uma equipe de resgate. Sentia-me atordoado, quase inconsciente, e a luz me cegou enquanto escavavam para me libertar. A sala em que eu estivera afundara parcialmente, ficando inclinada, mas ainda estava estranhamente intacta, com as paredes e agora a maior parte do teto transformadas em aço. O resto do prédio grande não passava de escombros.

A mulher sussurrou algo em meu ouvido:

– Finja estar morto. – Então, me carregou até uma fila de cadáveres e colocou um cobertor sobre mim. Ela tinha adivinhado o que Coração de Aço poderia fazer com sobreviventes.
Quando a moça voltou para procurar outras vítimas vivas, entrei em pânico e engatinhei para fora do cobertor. Estava escuro lá fora, embora devesse ser o fim da tarde. Punho da Noite pairava sobre nós; o reinado de Coração de Aço tinha começado.

Aos tropeções, manquei até um beco. Isso salvou minha vida uma segunda vez. Momentos depois de eu escapar, Coração de Aço retornou, flutuando pelas luzes de resgate e aterrissando ao lado dos escombros. Ele trazia alguém com ele, uma mulher magra com o cabelo preso num coque. Mais tarde, eu descobriria que ela era uma Épica chamada Falha Sísmica, que tinha o poder de mover terra. Embora um dia ela fosse desafiar Coração de Aço, nessa época ainda o servia.

Ela mexeu a mão e o chão começou a tremer.

Eu fugi, confuso, assustado e com dor. Atrás de mim, o chão se abriu, engolindo os restos do banco – assim como os corpos dos que tinham morrido, os sobreviventes que recebiam atenção médica e a própria equipe de resgate. Coração de Aço não queria deixar qualquer evidência. Ele fez Falha Sísmica enterrar todos eles sob dezenas de metros de terra, matando todas as pessoas que possivelmente pudessem falar sobre o que tinha acontecido naquele banco.

Exceto eu.

Mais tarde naquela noite, ele realizou a Grande Transfersão, uma exibição incrível de poder com a qual transformou a maior parte de Chicago – prédios, veículos, ruas – em aço. Isso incluiu uma grande porção do lago Michigan, que se tornou uma vastidão vítrea de metal negro. Foi ali que ele construiu seu palácio.

Eu sei, melhor do que qualquer outra pessoa, que não há heróis vindo nos salvar. Não há Épicos bons. Nenhum deles nos protege. O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Nós vivemos com eles. Tentamos existir apesar deles. Uma vez que o Ato de Capitulação foi aprovado, a maior parte das pessoas parou de resistir. Em algumas áreas que hoje chamamos de Estados Fraturados, o antigo governo permanece marginalmente no controle. Eles deixam os Épicos fazerem o que quiserem e tentam continuar como uma sociedade falida. A maior parte dos lugares, porém, vive no caos, sem lei alguma.

Em alguns lugares, como Nova Chicago, um único Épico sobre-humano governa como tirano. Coração de Aço não tem rivais aqui. Todos sabem que ele é invulnerável. Nada consegue feri-lo: nem balas, nem explosões, nem eletricidade. Nos primeiros anos, outros Épicos tentaram derrubá-lo e reivindicar seu trono, como Falha Sísmica.

Estão todos mortos. Agora é muito raro qualquer um deles tentar.

No entanto, se existe um fato ao qual podemos nos agarrar, é este: todo Épico tem uma fraqueza. Algo que anula seus poderes, que os transforma de volta em pessoas comuns, mesmo que apenas por um momento. Coração de Aço não é exceção; os eventos daquele dia no banco provam isso.

Minha mente guarda a pista sobre como Coração de Aço pode ser morto. Algo sobre o banco, a situação, a arma ou o meu próprio pai foi capaz de contrapor-se à sua invulnerabilidade. Muitos de vocês provavelmente sabem da cicatriz na bochecha de Coração de Aço. Bem, até onde posso determinar, sou a única pessoa viva que sabe como ele a conseguiu.

Eu já vi Coração de Aço sangrar.

E o verei sangrar de novo.

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