Breaking Bad: Em livro de memórias, Bryan Cranston conta como se tornou Walter White

Bryan Cranston lançou nos EUA A Life in Parts, livro de memórias em que narra a sua carreira, incluindo como conquistou o papel que mudaria sua vida: o Walter White, de Breaking Bad.

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No trecho a seguir, publicado na Variety, o ator conta como foi seu primeiro contato com o roteiro da série e a sua primeira reunião com o criador do programa Vince Gilligan.

Não sei se sabia o que aquele título significava, mas o roteiro era oh-meu-Deus de soberbo, o melhor drama de uma hora para a TV que já havia lido. Ótimas caracterizações, elementos que davam nuances à história, surpresas que o deixavam pensando: o que vai acontecer a seguir?

Pela qualidade do texto, comecei a sonhar com esse personagem, esse Walter White. Estava acordando no meio da noite com ele na minha cabeça. Lembro de estar na estrada de Blue Ridge, vagando na chuva. Fiquei tão envolvido lendo uma peça de Ibsen, com a história e os personagens, que esqueci da chuva. Não posso descrever o quão raro é encontrar isso em um roteiro. Não posso explicar como um ator anseia trabalhar com esse tipo de riqueza, profundidade, humor e humanidade. Construir em cima disso. Era isso. Não tinha ideia para onde a história ia, mas sabia que valia ouro.

Eu tinha uma reunião com Vince na semana seguinte. Disse aos meus agentes: “Adiantem”. Fui até os escritórios da AMC no oeste de Los Angeles sabendo que tinha 20 minutos agendados e acabei ficando uma hora e meia.

“Você sabe qual é o visual dele?”, perguntei. “Uh, mais ou menos”, Vince respondeu, sorrindo.

Arrisquei algumas das ideias que tinha tido desde que lera o roteiro. “Ele perdeu muitas oportunidades na vida”, disse. “Você pode ver isso em cada parte dele. Ele tem um bigode que não é viril, que não é nada. Você olha para ele e diz: Por que se dar ao trabalho? Sua pele e seu cabelo são da mesma cor sem graça. Ele usa amarelo pálido, bege e cinza. Ele se mistura ao fundo. Invisível. Para sociedade. Para si mesmo. Acho que ele é suado. Oitenta e quatro quilos”.

Vi esse personagem, esse homem, tão nitidamente. Sabia como ele se portava. Sobrecarregado. Seus ombros caídos como os de um homem muito mais velho. Estava imaginando um homem que se portava muito como o meu pai.

Quando perguntei sobre os seus planos para o arco da série, Vince me respondeu com o seu gentil sotaque da Virgínia: “Quero levar esse personagem de Sr. Chips [do filme Adeus, Mr. Chips] para Scarface”.

“Então você vai levar esse cara do bem para o mal?”, eu disse. Ele concordou e sorriu tímido, “Se eles me deixarem”.

Não podia acreditar.

Tudo na TV, até aquele ponto, tinha se baseado na estase, personagens que você passa a conhecer e amar. O pensamento dominante na maior parte da história da televisão era de que o público queria alguém com quem podia contar. Archie Bunker. Em todo episódio de Tudo em Família (All in the Family) ele continua a ser Archie. Jerry Seinfeld a mesma coisa. Ross e Rachel, vocês os via em diferentes situações – eles vão ou não? – mas eles eram sempre Ross e Rachel. Até mesmo os personagens que sabemos que abriram novos caminhos, como Tony Soprano. Por mais genial e transformadora que aquela atuação e aquela série tenham sido, você não viu Tony se transformar muito do início ao fim da série. Tony Soprano é Tony Soprano. Don Draper pode ter mudado um pouco, mas ele basicamente continua a ser Don Draper até o final meditativo da série, e até isso é discutível. Alguns argumentam que o publicitário viciado em trabalho não estava meditando no aqui e agora, mas na ideia de um comercial para a Coca.

Típico Don.

Vince estava propondo destruir o modelo de um programa de sucesso. Walt mudaria verdadeiramente. Ao final da série ele estaria irreconhecível, para o público, para si mesmo.

“Você realmente vai fazer isso?”, perguntei novamente. “Esse é o plano”, ele disse, rindo. “Você está ciente que ninguém fez isso na história na TV?”.

Vince encolheu os ombros. “Vamos ver se funciona”. Eu também não sabia se funcionaria. Mas sabia que eu queria. Eu precisava conseguir o papel.

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