Conheça Nada mais a perder, o novo livro de Jojo Moyes

Publicado em 2009 na Inglaterra, Nada mais a perder, romance inédito de Jojo Moyes no Brasil, chega às livrarias a partir de 23 de setembro. Na obra, a autora do sucesso Como eu era antes de você que acaba de atingir a marca de 1,5 milhão de exemplares vendidos no país entrelaça as emocionantes histórias de duas mulheres em momentos cruciais de suas vidas.

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Aos 14 anos, Sarah vive em um simples conjunto habitacional inglês com o avô, Henri Lachapelle. Na juventude, ele foi um cavaleiro de raro talento, entre os poucos admitidos na academia de elite do hipismo francês, o Le Cadre Noir, porém as reviravoltas da vida o levaram para a Inglaterra. Mas, sem nunca abandonar o amor pela antiga carreira, aos trancos e barrancos ele ensina a neta a montar o cavalo Boo, na esperança de que o talento da dupla seja o passaporte para uma vida melhor e mais digna para todos. Mas um grande golpe muda mais uma vez os planos de Henri, e Sarah se vê entregue à própria sorte, lutando para, além de sobreviver, cuidar de Boo e manter os treinamentos.

Natasha é uma advogada especializada em representar crianças e adolescentes envolvidos com crimes ou em situação de risco. Abalada emocionalmente e em dúvida quanto a seu futuro profissional depois de um caso terrível, ela ainda tem de lidar com as feridas do fim de seu casamento. Um fim, aliás, bem inusitado, já que ela se vê forçada a morar com o charmoso futuro ex-marido enquanto esperam a venda da casa da família.

Quando Sarah cruza o caminho de Natasha, a advogada vê na menina a oportunidade de colocar a vida de volta nos trilhos. O que ela não sabe é que Sarah guarda um grande segredo que lhes trará sérias consequências.

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Leia um trecho de Nada mais a perder:

CAPÍTULO 1

“O cavalo que assim recua é uma coisa tão maravilhosa que prende o olhar de todos os espectadores, jovens e velhos.”
XENOFONTE, SOBRE EQUITAÇÃO, C. 350 A.C.

AGOSTO

O trem das seis e quarenta e sete para a Liverpool Street estava abarrotado. Parecia ridículo que um trem estivesse assim tão cheio àquela hora da manhã. Natasha Macauley se sentou, já com calor apesar do ar fresco do início do dia, murmurando um pedido de desculpas para uma mulher que precisou tirar a jaqueta do assento. O homem de terno que tinha subido no vagão atrás dela havia se enfiado em uma brecha entre os passageiros do outro lado e logo abriu o jornal, alheio à mulher cujo livro ele em parte cobriu.

Não era o trajeto que ela costumava fazer para chegar ao trabalho: tinha passado a noite em um hotel em Cambridge depois de um seminário sobre direito. Levava no bolso do casaco um número satisfatório de cartões de visitas de advogados de várias especialidades; tinham lhe dado parabéns por sua palestra, então sugeriram reuniões futuras e possíveis trabalhos. Mas o vinho branco barato que circulara em abundância agora fazia seu estômago revirar, e ela desejou, por um instante, que tivesse arrumado tempo para tomar café da manhã. Ela não costumava beber e era difícil controlar o consumo em eventos em que sua taça era completada o tempo todo enquanto estava distraída com a conversa.

Natasha apertava com força o copo de isopor com café escaldante e deu uma olhada na agenda, prometendo a si mesma que em algum momento daquele dia iria encontrar um pouquinho mais do que meia hora para clarear as ideias. A agenda deveria ter uma hora reservada para a academia. Ela deveria tirar uma hora de almoço. Afinal, era como a mãe sempre dizia, brigando: ela tinha que cuidar de si mesma.

Mas, no momento, estava escrito na agenda:

  • 9h LA contra Santos, Sétimo Tribunal
  • Divórcio Persey. Avaliação psicológica da criança?
  • Honorários! Ver com Linda a situação do auxílio legal
  • Fielding — onde está a declaração da vítima? MANDAR FAX HOJE

Cada página, pelo menos durante as duas semanas seguintes, era uma série de listas feitas e refeitas de modo incansável e infinito. Quase todos os colegas dela no escritório Davison Briscoe tinham migrado para os eletrônicos, que usavam para organizar a vida, mas ela preferia a simplicidade da caneta e do papel, apesar de Linda reclamar que as agendas dela eram ilegíveis.

Natasha tomou um gole do café, se deu conta de que dia era e fez uma careta. Adicionou:

  • Flores/desculpas — aniversário da mamãe

O trem sacudia em direção a Londres, o terreno plano de Cambridgeshire se transformando nos arredores cinzentos e industriais da cidade. Natasha não tirava os olhos de seus papéis, esforçando-se para se concentrar neles. Estava de frente para uma mulher que parecia achar normal comer um hambúrguer com queijo extra no café da manhã e um adolescente cuja expressão vazia não combinava em nada com o tum-tum-tum que emanava de seus fones de ouvido. O dia seria brutalmente quente: o calor penetrava o vagão de trem lotado, transferido e intensificado pelos corpos.

Fechou os olhos e desejou ser capaz de dormir em trens, então os abriu ao ouvir o celular tocar. Remexeu na bolsa e encontrou o aparelho entre a maquiagem e a carteira. Uma mensagem de texto pipocou na tela:

Autoridade local do caso Watson adiou. Não precisa estar no tribunal às 9h.
Ben

Nos últimos quatro anos, Natasha fora a única advogada do escritório Davison Briscoe que lidava diretamente com os clientes e não atuava nas cortes mais altas, papel que tinha se mostrado adequado já que sua especialidade era representar crianças e adolescentes. Eles ficavam menos abalados de ir ao tribunal com a mulher para quem já tinham se explicado em seu escritório. De sua parte, Natasha gostava de poder ter uma relação com os clientes e ainda curtia os elementos mais controversos da advocacia.

Obrigada. Chego ao escritório em meia hora

Foi a resposta que ela mandou, com um suspiro de alívio. Então xingou em silêncio: no fim das contas, ela não precisava ter pulado o café da manhã.

Estava guardando o celular quando o aparelho voltou a tocar. Era Ben, seu estagiário:

— Só queria lembrar que nós… Ah… remarcamos a garota paquistanesa para as dez e meia.
— Aquela cujos pais estão sendo acusados de maus-tratos? — A mulher ao lado dela tossiu para chamar sua atenção. Natasha olhou para cima e leu “É proibido o uso de celulares” escrito na janela, baixou a cabeça e folheou a agenda. — Também temos os pais do caso de sequestro infantil às duas. Você pode providenciar os documentos relevantes? — murmurou.
— Já providenciei. E comprei alguns croissants — completou Ben. — Imagino que você não tenha comido nada.

Ela nunca comia nada. Suspeitava que, se o escritório algum dia acabasse com o programa de estágio, ela morreria de fome.

— São de amêndoas. Os seus preferidos.
— Ben, o puxa-saquismo vai te levar longe.

Natasha fechou o celular e depois a bolsa. Tinha acabado de pegar na pasta a papelada da menina quando o telefone voltou a tocar.

Dessa vez, os passageiros suspiraram alto, indicando irritação. Ela murmurou um pedido de desculpas sem fazer contato usual com ninguém.

— Natasha Macauley.
— Sou eu, Linda. Acabei de receber uma ligação de Michael Harrington. Ele concordou em trabalhar com você no divórcio dos Persey.
— Maravilha.

Era um divórcio envolvendo muito dinheiro, com questões complicadas de guarda. Ela precisava de um advogado peso pesado para cuidar do lado financeiro.

— Ele quer discutir algumas questões hoje à tarde. Pode ser às duas? Natasha estava ponderando quando a mulher ao seu lado começou a resmungar num tom nada simpático.
— Acho que tudo bem. — Ela se lembrou da agenda que estava na pasta. — Ai. Não. Tenho uma reunião. — A mulher no trem cutucou o ombro dela. Natasha cobriu o bocal do celular com a mão. — Só vou demorar mais dois segundos — disse, em um tom mais brusco do que pretendia. — Sei que neste vagão é proibido usar celular e sinto muito, mas preciso terminar esta ligação.

Ela prendeu o celular entre a orelha e o ombro, achou a agenda com dificuldade na pasta e então se virou irritada quando a mulher voltou a cutucar seu ombro.

— Eu disse que só vou…
— Seu café está em cima da minha jaqueta.

Ela olhou para baixo. Viu o copo equilibrado com precariedade na borda da jaqueta cor de creme.

— Ah. Desculpe. — Pegou o copo. — Linda, será que podemos reorganizar a tarde? Devo ter uma brecha em algum momento.
— Hah!

A risada da secretária ecoou em seu ouvido depois que ela fechou o celular. Riscou a ida ao tribunal na agenda, adicionou a reunião e ia guardá-la na bolsa quando algo na manchete do jornal à sua frente lhe chamou a atenção.

Ela se inclinou para conferir se tinha lido direito o nome no primeiro parágrafo. Curvou-se tanto que o homem que lia o jornal abaixou-o e olhou feio para ela.

— Desculpe — disse, ainda atônita pela notícia. — Será que eu… Será que eu poderia dar uma olhadinha no seu jornal?

Ele ficou muito espantado para recusar. Natasha pegou o jornal, encontrou a página certa e leu a matéria duas vezes, empalideceu e devolveu o jornal para o homem.

— Obrigada — falou, com a voz fraca.

O adolescente ao lado dela dava um sorrisinho, como se mal pudesse acreditar na quebra de decoro entre passageiros que acabara de acontecer diante dele.

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