Resenha: “A casa assombrada”, de John Boyne

Em A casa assombrada, Boyne nos mostra que é gente como a gente: nem sempre se acerta, mas sempre se tenta.
A_CASA_ASSOMBRADA_1418761916426739SK1418761916BInformações Gerais
Título original: This house is haunted
Editora: Companhia das letras
ISBN: 9788535925265
Páginas: 296
Ano: 2015
Autor: John Boyne
Nota Skoob: 4.0

Em sua primeira aventura de suspense com terror totalmente ficcional, e bem longe daquele cenário de guerras reais, John Boyne se aventura por uma estrada que pode ter dois caminhos: certo ou errado. É fato que um suspense com muito mistério e sobrenatural são ingredientes que podem ser favoráveis a qualquer autor. Mas isso só não basta. Por isso considero que o caminho tomado por A casa assombrada foi segundo, lamentavelmente. Sou fã do autor, mas, possivelmente, por ser a primeira obra do tipo, deixou a desejar por ser muito simples e rasa, uma vez que se trata de uma história cheia de possibilidades, mas pouquíssima explorada. Ele demonstrou insegurança em velejar por águas desconhecidas.

Eliza Caine vive em Londres e, aos 21 anos, não pode dizer que teve vida que sempre quis ter. Perdeu a mãe e a irmã há alguns anos, e acaba de perder o pai. Agora, ela está sozinha, em uma cidade fria, sem perspectivas para seu futuro. Mas ao ver um anúncio de jornal em que se contrata uma governanta para uma casa muito longe da capital da Inglaterra, ela acredita ter encontrado um sentido para sua vida. Por isso, não exita e aceita o desafio. Ela muda de vida radicalmente e passa a trabalhar numa mansão em que residem apenas duas crianças: Isabela e Eustace. Mas cadê os pais? Cadê os responsáveis? Cadê todo mundo? A partir daí muita coisa estranha passa a fazer parte da rotina da protagonista.

Assim como ela, os leitores também ficam no escuro. Em alguns casos, este recurso é favorável à leitura. Neste, para mim, porém, teve efeito contrário. Desde o início, é óbvio para nós que a casa assombrada é justamente a mansão em que Eliza passará a trabalhar. Isso se torna fato quando as coisas estranhas começam a acontecer. No entanto, incomoda o fato de que a governanta, tampouco os demais personagens, assumem que existe assombração ou fantasmas naquele lugar. A protagonista é vítima de acidentes bizarros, no entanto, não admite o que todos – os leitores e ela – sabem. Eliza vive numa ânsia de descobrir o que está acontecendo, mas nada parece sair do lugar. Uma espécie de dito pelo não dito.

Toda a primeira parte do livro parece não avançar justamente por conta dessa passividade da protagonista, até que ela começa a tomar um atitude e parte em busca de respostas, mesmo que todos a façam de boba. Aliás, ela o é, quando um determinado personagem confirma que ela demorou demais para perceber o que estava acontecendo. Outro fato que incomoda é a falta de profundidade. Sem dúvida, é uma boa história – a conferir adiante -, mas o autor não aprofunda e não explora os temas de forma satisfatória. Existem vários personagens, um plano de fundo incrível, possibilidade enormes a serem exploradas e abusadas, mas que são deixadas de lado e até prejudicam um pouco a experiência de leitura, uma vez que se torna um livro superficial e até infantil, mesmo que aborde assombrações num grau mais maduro do que infanto.

A bem da verdade, no entanto, eu esperava ainda mais assombração, mais terror, mais medo. Esperava uma protagonista mais forte. E não digo isso baseado em sinopses, já que não as vi antes de ler o livro. Mas falo baseado na própria leitura. A escrita, diferente de O menino do pijama listrado e O garoto no convés, por exemplo, também deixa a desejar. Os diálogos não são tão naturais e nem há tanta emoção no texto em geral. Mais um defeito: não consegui identificar nitidamente que o livro se passava em 1867. Quando comecei a ler, me parecia uma história recente e só soube que não era pouco depois. Porém, a obra tem sim suas qualidades.

O plano de fundo em si é muito interessante e nos remonta a histórias de terror das mais clássicas. Daquelas simples e assustadoras, diferentes das mais recentes, em que se inventa muito e foge da intenção principal. Todo o terror presente na história tem por base uma boa história criada por John Boyne. A trama é muito interessante, não soa falsa e é bastante atraente. Alem disso, os temas abordados são incríveis e muito bem encaixados. Vou listar alguns: fanatismo religioso, vida pós-morte, violência sexual e feminismo. São temas fortes em vista da época retratada no livro.

A parte final da história me agradou bastante. O livro tem vários clichês e ao longo dele não é difícil de imaginar alguns acontecimentos. Mas algumas decisões tomadas pelo autor deram um fôlego a mais para a história. A edição da Companhia das letras é muito bem feita, a capa é muito bonita, e foram poucos os erros de digitação encontrados. O livro não é de todo ruim, mas nem de todo bom. É intermediário, para um início em outros gêneros que poderia ter sido mais satisfatório. Espero ver Boyne novamente com histórias que não foquem apenas guerras e fatos reais. Espero ver Boyne evoluindo em relação a A casa assombrada, uma vez que ele mostrou insegurança por estar emergindo em um estilo pouco conhecido de sua parte. Tenho certeza que essa evolução vai acontecer. Por isso, três estrelas.

Notas 3

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