George R. R. Martin posta trecho do novo livro de ‘Game of thrones’

George R.R. Martin ainda não terminou de escrever Os Ventos do Inverno, mas o autor da saga que inspira Game of Thrones divulgou nesta quarta-feira mais um capítulo terminado do sexto livro de As Crônicas de Gelo e Fogo. Entretanto, antes de que os leitores fiquem felizes demais, ele já avisa: “Isso não significa que eu tenha terminado!”

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O capítulo divulgado, entretanto, pouco ou nada diz para aqueles que acompanham apenas a série, por ser sob o ponto de vista de uma personagem que não existe na versão de Benioff e Weiss. Trata-se de Arianne Martell, filha do príncipe Doran Martell, que foi interpretado na série por Alexander Siddig (atenção para o spoiler!)… antes de ter sido executado por Ellaria Sand (Indira Varma), em uma cena que gerou muito descontentamento entre a audiência.

Em uma publicação feita ao mesmo tempo em seu blog pessoal, o Not A Blog, Martin enfatizou, de uma forma ligeiramente implícita, as diferenças cada vez maiores entre a sua obra original e a versão da HBO.

“Vocês querem saber o que as Serpentes de Areia, o Príncipe Doran, Areo Hotah, Ellaria Sand, Estrela Negra, e o restante vão fazer em Os Ventos de Inverno? Bastante coisa, para falar a verdade. A amostra vai dar a vocês um gostinho. Para o resto, vocês vão ter que esperar.” Clique aqui para ler o capítulo divulgado, em inglês.

Em uma entrevista concedida à Entertainment Weekly antes do início da temporada, os produtores criativos David Benoiff e Daniel Weiss (ou simplesmente D&D) haviam comentado as divergências que viriam:

“As pessoas estão discutindo se os livros receberão spoilers — e isso não é mesmo verdade. Muito do que estamos fazendo diverge dos livros, nesse ponto. Embora haja alguns elementos-chave que serão iguais, não falaremos muito sobre isso — e acho que George também não. As pessoas ficarão muito surpresas ao ler os livros após a série.”

Ao fim do texto, o autor esclarece que a atualização não significa que ele tenha terminado de escrever o próximo volume. “O macaco ainda está nas minhas costas… mas ele está crescendo, ele está, e um dia…”

Veja um trecho traduzido pelo site Game Of Thrones Brasil – para ler completo, clique aqui:

Arianne


Ao longo de toda a costa sul do Cabo da Fúria se erguiam torres de pedra esfaceladas, erguidas em dias antigos para darem o aviso sobre invasores dorneses se esgueirando pelo mar. Aldeias haviam crescido ao redor das torres. Algumas haviam florescido em vilas.

O Peregrino aportou na Vila Chorosa, onde o cadáver do Jovem Dragão havia permanecido por três dias em sua jornada de Dorne para casa. Os estandartes tremulando nos robustos muros de madeira da vila ainda ostentavam o veado-e-leão do Rei Tommen, sugerindo que pelo menos aqui a ordem do Trono de Ferro ainda poderia ter influência. “Segurem suas línguas,” Arianne alertou sua companhia à medida em que desembarcavam. “Seria melhor que Porto Real nunca soubesse que passamos por aqui.” Se a rebelião de Lorde Connington fosse suprimida, seria ruim para eles se fosse sabido que Dorne a enviara para tratar com ele e seu pretendente. Essa era outra lição que seu pai havia se esforçado para ensiná-la; escolha seu lado com cuidado, e somente se eles tiverem a chance de vencer.

Não tiveram problemas para comprar cavalos, apesar de o custo ser cinco vezes o que teria sido no ano anterior. “São velhos, mas sadios,” afirmou o estribeiro, “vocês não irão encontrar melhores deste lado de Ponta Tempestade. Os homens do grifo confiscam qualquer cavalo e mula que encontram. Bois também. Alguns fazem uma marca em um papel se você pedir por pagamento, mas outros poderiam muito bem abrir sua barriga e pagar com um punhado de suas próprias entranhas. Se vocês encontrarem qualquer um desses, tomem cuidado com suas línguas e entreguem os cavalos.”

A vila era grande o bastante para acomodar três estalagens, e todas as suas salas comuns estavam repletas de rumores. Arianne enviou seus homens a cada uma delas, para escutar o que pudessem. Na Escudo Quebrado, a Daemon Sand foi dito que a grande septeria no Holf of Men havia sido queimada e saqueada por invasores do mar, e uma centena de jovens noviças da casa-mãe na Ilha da Donzela levadas como escravas. Na Mergulhão, Joss Hood descobriu que meia centena de homens e meninos da Vila Chorosa haviam se dirigido ao norte para se juntarem a Jon Connington no Poleiro do Grifo, incluindo Sor Addam, o filho e herdeiro do velho Lorde Whitehead. Mas na adequadamente nomeada Dornês Bêbado, Penas ouviu homens murmurando que o grifo havia executado o irmão de Ronnet Vermelho e estuprado sua virgem irmã. Quanto ao próprio Ronnet, era dito que ele estava correndo para o sul para vingar a morte de seu irmão e a desonra de sua irmã.

Naquela noite, Arianne despachou o primeiro de seus corvos de volta a Dorne, reportando a seu pai tudo o que haviam visto e ouvido. Na manhã seguinte sua companhia saiu em direção a Matabruma, enquanto os primeiros raios do sol nascente se inclinavam pelos tetos pontiagudos e becos tortos da Vila Chorosa. Pela metade da manhã uma leve chuva começou a cair, enquanto eles faziam seu caminho para o norte por uma região de campos verdes e pequenas aldeias. Por enquanto, eles não haviam visto sinais de combate, mas todos os outros viajantes ao longo da estrada esburacada pareciam estar indo na outra direção, e as mulheres nas aldeias por que passavam os miravam com olhos cautelosos e mantinham suas crianças por perto. Mais ao norte, os campos deram lugar a colinas onduladas e bosques espessos de floresta antiga, a estrada se reduziu a uma trilha, e aldeias se tornaram menos comuns.

O crepúsculo os viu nas bordas da Mata de Chuva, um mundo verde e molhado onde córregos e rios corriam por florestas escuras e o solo era feito de lama e folhas em decomposição. Enormes salgueiros cresciam ao longo dos cursos d’água, maiores do que quaisquer que Arianne já tivesse visto, seus grandes troncos tão nodosos e retorcidos como a face de um velho homem e adornados com barbas de musgo prateado. Árvores se comprimiam em todos os lados, impedindo a entrada do sol; cicuta e cedros vermelhos, carvalhos brancos, pinheiros marciais que se erguiam tão altos e eretos como torres, sentinelas colossais, bordos de folhas grandes, sequoias, árvores-bicho, até um represeiro selvagem aqui e ali. Por debaixo de seus galhos emaranhados samambaias e flores cresciam em profusão; samambaias-espada, samambaias-senhora, campânulas e fitas do flautista, canárias e beijos envenenados, hepáticas, pulmonárias, corníferas. Cogumelos brotavam em meio às raízes das árvores, e de seus troncos também, pequenas mãos pálidas que apanhavam a chuva. Outras árvores estavam peludas de musgo, verde ou cinza ou de rabo vermelho, e uma vez de um púrpura vívido. Líquens cobriam cada rocha e pedra. Cogumelos venenosos ulceravam ao lado de toras podres. O próprio ar parecia verde.

Arianne havia uma vez ouvido seu pai e Meistre Caleotte discutindo com um septão sobre porque os lados norte e sul do Mar de Dorne eram tão diferentes. O septão achava ser por causa de Durran Desgosto-Divino, o primeiro Rei da Tempestade, que havia roubado a filha do deus do mar e da deusa do vento e recebido deles inimizade eterna. Príncipe Doran e o meistre se inclinavam mais em direção ao vento e à água, e falaram sobre como as grandes tempestades que se formavam no Mar de Verão abaixo captavam umidade ao se mover para o norte até que batiam no Cabo da Fúria. Por alguma estranha razão as tempestades nunca pareciam atingir Dorne, ela se lembrava de seu pai dizer. “Eu sei o motivo,” o septão havia respondido. “Nenhum Dornês jamais roubou a filha de dois deuses.”

O passo estava muito mais lento aqui do que havia estado em Dorne. Ao invés de verdadeiras estradas, eles montavam cortes corcundas que serpenteavam por aqui e ali, por entre fendas em enormes rochas cobertas de musgo e abaixo de profundas ravinas entupidas de espinhos de amoreiras negras. Às vezes a trilha se acabava completamente, se afundando em brejos ou desaparecendo em meio às samambaias, deixando Arianne e seus companheiros para encontrar seu próprio caminho por entre as árvores silenciosas. A chuva ainda caia, macia e firme. O som do orvalho escorrendo pelas folhas estava a todo o redor deles, e mais ou menos a cada milha a melodia de uma outra pequena cachoeira os chamava.

A mata estava cheia de cavernas também. Naquela primeira noite eles se abrigaram em uma delas, para sair da umidade. Em Dorne eles haviam frequentemente viajado após escurecer, quando o luar transformava as areias assoprantes em prata, mas a Mata de Chuva era muito cheia de brejos, ravinas e sumidouros, e escura como breu abaixo das árvores, onde a lua era apenas uma memória.

Penas acendeu um fogo e cozinhou um par de lebres que Sor Garibald havia pego com algumas cebolas selvagens e cogumelos que havia encontrado ao longo do caminho. Depois de comerem, Elia Sand transformou um pau e um pouco de musgo seco em uma tocha, e entrou explorando caverna adentro. “Não vá muito longe,” Arianne disse a ela. “Algumas dessas cavernas são muito profundas, é fácil se perder.”

A princesa perdeu mais uma partida de cyvasse para Daemon Sand, ganhou uma de Joss Hood, depois se retirou enquanto os dois começaram a ensinar as regras a Jayne Ladybright. Ela estava cansada desses jogos.

Nym e Tyene podem ter chegado a Porto Real a essa altura, ela refletiu, enquanto se acomodou de pernas cruzadas à boca da caverna para assistir à chuva que caía. Se não, elas deverão estar lá em breve. Trezentos lanceiros experientes haviam ido com elas, além do Caminho do Espinhaço, passando pelas ruínas de Solarestival, e Estrada do Rei acima. Se os Lannisters tivessem tentado sua pequena armadilha na Mataderrei, a Senhora Nym teria garantido que terminasse em desastre. Tampouco os assassinos teriam encontrado sua presa. O Príncipe Trystane havia permanecido em segurança em Lançassolar, depois de uma chorosa despedida da Princesa Myrcella. Isso conta um irmão, pensou Arianne,mas onde está Quentyn, senão com o grifo? Teria ele se casado com sua rainha dragão? Rei Quentyn. Ainda soava idiota. Essa nova Daenerys Targaryen era mais nova que Arianne por meia dúzia de anos. O que uma donzela dessa idade quereria com seu irmão enfadonho e dado à leitura? Jovens garotas sonhavam com cavaleiros arrojados de sorrisos maliciosos, não garotos solenes que sempre cumpriam seu dever. Ela vai querer Dorne, porém. Se ela espera se sentar no Trono de Ferro, ela tem que ter Lançassolar. Se Quentyn fosse o preço para isso, essa rainha dragão o pagaria. E se ela estivesse em Poleiro do Grifo com Connington, e tudo isso sobre um outro Targaryen fosse apenas alguma espécie de sutil ardil? Seu irmão poderia muito bem estar com ela. Rei Quentyn. Terei que me ajoelhar para ele?

Nada de bom viria de ficar imaginando sobre isso. Quentyn seria rei ou não seria. Rogo para que Daenerys o trate mais gentilmente do que ela tratou seu próprio irmão.

Era hora de dormir. Eles tinham muitas léguas para montar pela manhã. Foi apenas quando se acomodou que Arianne perecebeu que Elia Sand não havia retornado de suas explorações. Suas irmãs vão me matar de sete formas diferentes se qualquer coisa tiver acontecido a ela. Jayne Ladybright jurou que a menina nunca havia deixado a caverna, o que significava que ela ainda estava lá atrás em algum lugar, vagando pela escuridão. Quando os gritos deles não a fizeram aparecer, não havia mais nada a fazer a não ser produzir tochas e ir à procura dela.

A caverna se mostrou muito mais profunda do que qualquer deles havia suspeitado. Além da boca pedregosa onde sua companhia havia acampado e amarrado seus cavalos, uma série de passagens entortadas levavam abaixo e abaixo, com buracos negros serpenteando em ambos os lados. Mais adentro, as paredes se abriam novamente, e os buscadores se viram em uma vasta caverna de calcário, maior que o salão principal de um castelo. Seus gritos perturbaram um ninho de morcegos, que se agitaram ao redor deles ruidosamente, mas apenas ecos distantes gritaram de volta. Um pequeno circuto do salão revelou mais três passagens, uma tão pequena que teria requerido que eles prosseguissem com as mãos e joelhos. “Tentaremos as outras primeiro,” a princesa disse. “Daemon, venha comigo. Garibald, Joss, vocês vão pela outra.”

A passagem que Arianne havia escolhido para si mesma se tornou íngreme e molhada em cem pés. O pisar se tornou incerto. Uma vez ela escorregou, e teve que se segurar para não deslizar. Mais de uma vez ela considerou voltar, mas ela conseguia ver a tocha de Sor Daemon à frente e o ouvia chamar por Elia, então continuou. E de uma vez ela se viu em outra caverna, cinco vezes maior do que a anterior, cercada por uma floresta de colunas de pedra. Daemon Sand se moveu para seu lado e ergueu sua tocha. “Veja como a pedra foi talhada,” ele disse. “Aquelas colunas, e a parede lá. Vê?”

“Rostos,” disse Arianne. Tantos olhos tristes, encarando.

“Este lugar pertencia aos filhos da floresta.”

“Há mil anos.” Arianne virou sua cabeça. “Escute. É Joss?”

Era. Os outros buscadores haviam encontrado Elia, como ela e Daemon descobriram depois de fazerem seu caminho pela ladeira escorredia até o último salão. A passagem deles levava a um quieto poço escuro, onde eles descobriram a garota até a cintura na água, agarrando peixes brancos cegos com as próprias mãos, sua tocha queimando vermelha e enfumaçada na areia onde ela a havia firmado.

“Você poderia ter morrido,” Arianne disse a ela, quando ouviu a história. Ela agarrou Elia pelo braço e a sacudiu. “Se aquela tocha tivesse apagado você teria ficado sozinha no escuro, o mesmo que cega. O que você pensou que estivesse fazendo?”

“Eu peguei dois peixes,” disse Elia Sand.

“Você poderia ter morrido,” disse Arianne novamente. Suas palavras ecoaram pelas paredes da caverna.“…morrido…morrido… morrido…”

Mais tarde, quando retornaram à superfície e sua raiva havia esfriado, a princesa levou a garota a um canto e a sentou. “Elia, isso deve acabar,” ela disse. “Nós não estamos em Dorne agora. Você não está com suas irmãs, e isto não é um jogo. Eu quero sua palavra de que você vai fazer o papel de criada até que estejamos seguros de volta em Lançassolar. Eu a quero mansa, dócil e obediente. Você precisa segurar sua língua. Eu não vou mais ouvir mais conversas sobre Lady Lança ou justas, nenhuma menção a seu pai ou suas irmãs. Os homens com quem preciso tratar são mercenários. Hoje eles servem a esse homem que se chama de Jon Connington, mas pela manhã eles poderiam da mesma forma servir aos Lannister. Tudo que é necessário para ganhar o coração de um mercenário é ouro, e isso não falta em Rochedo Casterly. Se o homem errado descobrir quem você é, você poderia ser capturada e mantida como refém–”

“Não,” Elia interrompeu. “Você é quem eles vão querer como refém. Você é a herdeira de Dorne. Eu sou só uma menina bastarda. Seu pai daria um baú de ouro por você. Meu pai está morto.”

“Morto, mas não esquecido,” disse Arianne, que havia passado metade da vida desejando que o Príncipe Oberyn fosse seu pai. “Você é uma Serpente de Areia, e o Príncipe Doran pagaria qualquer preço para manter você e seus irmãs seguras.” Isso fez a criança sorrir pelo menos. “Tenho sua palavra jurada? Ou devo enviar você de volta?”

“Eu juro.” Elia não parecia feliz.

“Pelos ossos de seu pai.”

“Pelos ossos de meu pai.”

Esse juramento ela vai manter, se resolveu Arianne. Ela beijou sua prima na bochecha e a mandou dormir. Talvez alguma coisa boa viesse dessa sua aventura. “Eu nunca soube o quanto ela era selvagem até agora,” Arianne reclamou para Daemon Sand, depois. “Por que meu pai me castigaria com ela?”

“Vingança?” o cavaleiro sugeriu, com um sorriso.

Eles chegaram a Matabruma no fim do terceiro dia. Sor Daemon enviou Joss Hood à frente para patrulhar para eles e descobrir quem possuía o castelo no momento. “Vinte homens andando pelas muralhas, talvez mais,” ele relatou em seu retorno. “Muitas carroças e carroções. Sobrecarregadas ao entrar, vazias ao sair. Guardas em cada portão.”

“Estandartes?” perguntou Arianne.

“Dourados. Na guarita e na torre.”

“Que emblema eles ostentavam?”

“Nenhum que eu pudesse ver, mas não havia vento. Os estandartes caíam frouxos de seus mastros.”

Aquilo era incômodo. Os estandartes da Companhia Dourada eram de pano-de-ouro, sem brasões ou ornamentos… mas os estandartes da Casa Baratheon também eram dourados, apesar de os deles ostentarem o veado coroado de Ponta Tempestade. Estandartes dourados frouxos poderiam ser qualquer deles. “Havia outros estandartes? Cinza-prateados?”

“Todos os que vi eram dourados, princesa.”

Ela assentiu. Matabruma era a sede da Casa Mertyns, cujo brasão mostrava um corujão-orelhudo, branco sobre cinza. Se os estandartes deles não tremulavam, provavelmente os rumores eram verdadeiros, e o castelo havia caído nas mãos de Jon Connington e seus mercenários. “Temos de correr o risco,” ela disse a sua comitiva. A cautela de seu pai havia servido bem a Dorne, ela tinha aprendido a aceitar, mas este era um momento para a ousadia de seu tio. “Ao castelo.”

“Devemos desfraldar seu estandarte?” perguntou Joss Hood.

“Ainda não,” disse Arianne. Na maioria dos lugares, lhe servia bem fazer a princesa, mas havia outros em que não.

A meia milha dos portões do castelo, três homens em gibões de couro cravejado e meios-elmos de aço saíram das árvores para bloquear seu caminho. Dois deles carregavam brestas, puxados e encaixados. O terceiro estava armado apenas com um sorriso desagradável. “E para onde esse bando vai, bonitinhos?” ele perguntou.

“Para Matabruma, ver seu mestre,” respondeu Daemon Sand.

“Boa resposta,” disse o ridente. “Venham conosco.”

Os novos mestres mercenários de Matabura chamavam a si mesmos de Jovem John Mudd e Corrente. Ambos cavaleiros, pelo que diziam. Nenhum deles se comportava como qualquer cavaleiro que Arianne tivesse conhecido. Mudd vestia marrom da cabeça aos pés, do mesmo tom que sua pele, mas um par de moedas douradas balançava de suas orelhas. Os Mudds haviam sido reis perto do Tridente há mil anos, ela sabia, mas não havia nada de real neste. Ele também não era particularmente jovem, mas aparentemente seu pai também havia servido na Companhia Dourada, onde havia sido conhecido como Velho John Mudd.

Corrente tinha o dobro da altura de Mudd, seu largo peito cruzado por um par de correntes enferrujadas que iam da cintura ao ombro. Enquanto Mudd usava espada e adaga, Corrente não usava arma senão cinco pés de elos de ferro, duas vezes mais grossos e pesados do que os que cruzavam seu peito. Ele os segurava como um chicote.

Eram homens duros, bruscos e brutais e sem boas palavras, com cicatrizes e rostos gastos por conta de seu longo serviço nas companhias livres. “Sargentos,” Sor Daemon sussurrou quando os viu. “Já vi o tipo deles antes.”

Assim que Arianne fez seu nome e propósito conhecidos a eles, os dois sargentos se provaram suficientemente hospitaleiros. “Vocês passarão a noite,” disse Mudd. “Há camas para todos vocês. Pela manhã vocês terão cavalos frescos, e quaisquer provisões de que precisarem. O meistre da senhora pode enviar um corvo para Poleiro do Grifo para avisá-los de que estão chegando.”

“E quem seriam eles?” perguntou Arianne. “Lorde Connington?”

Os sargentos se entreolharam. “O Meiomeistre,” disse John Mudd. “É ele quem você vai encontrar no Poleiro.”

“O Grifo está marchando,” disse Corrente.

“Marchando para onde?” perguntou sor Daemon.

“Não cabe a nos dizer,” disse Mudd. “Corrente, segure sua língua.”

Correntes deu uma fungada. “Ela é Dorne. Por que não deveria saber? Veio para se juntar a nós, não veio?”

Isso ainda está para ser determinado, pensou Arianne Martell, mas ela achou melhor não insistir no assunto.

Ao cair da tarde uma boa ceia lhes foi servida no solar, no alto da Torre das Corujas, onde se juntou a eles a viúva Lady Mertyns e seu meistre. Apesar de cativa em seu próprio castelo, a velha mulher parecia ativa e bem disposta. “Meus filhos e netos saíram quando Lorde Renly convocou seus estandartes,” ela contou à princesa e sua comitiva. “Eu não os vi desde então, apesar de eles enviarem um corvo de tempos em tempos. Um de meus netos sofreu uma ferimento na Água Negra, mas se recuperou. Espero que eles retornem aqui em breve para enforcar esse bando de ladrões.” Ela acenou uma perna de pato para Mudd e Corrente do outro lado da mesa.

“Não somos ladrões,” disse Mudd. “Somos forrageadores.”

“Vocês compraram toda aquela comida lá embaixo no pátio?”

“Nós a forrageamos,” disse Mudd. “O povo pode produzir mais. Nós servimos nosso rei legítimo, velha.” Ele parecia estar gostando disso. “Você devia aprender a falar mais cortesmente a cavaleiros.”

“Se vocês dois são cavaleiros, eu ainda sou uma donzela,” disse a Senhora Mertyns. “E vou falar como quiser. O que vão fazer, me matar? Eu já vivi demais.”

A Princesa Arianne disse, “Foi bem tratada, senhora?”

“Não fui estuprada, se é o que está perguntando,” disse a velha mulher. “Algumas das serventes não tiveram a mesma sorte. Casadas ou não-casadas, os homens não fazem distinção.”

“Ninguém está estuprando,” insistiu Jovem John Mudd. “Connington não aceita isso. Nós seguimos ordens.”

Corrente assentiu. “Algumas garotas foram persuadidas, pode ser.”

“Da mesma forma que nosso povo foi persuadido a dar a vocês toda sua colheita. Melões ou virgindades, é tudo a mesma coisa para gente como vocês. Se vocês querem, vocês tomam.” A Senhora Mertyns se virou para Arianne. “Se encontrar com esse Lorde Connington, você diga a ele que conheci a mãe dele, e que ela estaria envergonhada.”

Talvez eu deva, pensou a princesa.

Naquela noite ela despachou o segundo corvo para seu pai.

Arianne estava a caminho de seus próprios aposentos quando ouviu risadas abafadas do quarto adjacente. Ela pausou e ouviu por um momento, então empurrou a porta para encontrar Elia Sand enrolada em um assento de janela, beijando Penas. Quando Penas viu a princesa em pé ali, deu um pulo e começou a gaguejar. Ambos ainda estavam com suas roupas. Arianne se consolou um pouco por isso ao mandar Penas embora com um olhar cortante e um “Vá”. Então ela se virou para Elia. “Ele tem o dobro de sua idade. Um servente. Ele limpa merda de pássaro para o meistre. Elia, em que estava pensando?”

“Estávamos só nos beijando. Não vou me casar com ele.” Elia cruzou seus braços desafiadoramente debaixo de seus peitos. “Você acha que nunca beijei um garoto antes?”

“Penas é um homem.” Um servente, mas um homem. Não escapou à princesa que Elia tinha a mesma idade que ela quando havia cedido sua virgindade para Daemon Sand. “Eu não sou sua mãe. Beije todos os garotos que quiser quando retornamos a Dorne. Aqui e agora, porém… este não é um lugar para beijos, Elia. Mansa, dócil e obediente, você disse. Devo adicionar casta a isso também? Você jurou pelos ossos de seu pai.”

“Eu me lembro,” disse Elia, parecendo castigada. “Mansa, dócil e obediente. Não vou beijá-lo novamente.”

O caminho mais curto de Matabruma a Poleiro do Grifo era pelo verde e molhado coração da Mata de Chuva, em passo vagaroso no melhor dos momentos. Arianne e sua companhia levaram a maior parte de oito dias. Eles viajaram sob a melodia de chuvas firmes e chicoteantes batendo nas copas das árvores bem acima, embora debaixo do grande dossel verde de folhas e ramos ela e seus cavaleiros permanecessem surpreendentemente secos. Corrente os acompanhou pelos primeiros quatro dias de sua jornada ao norte, com uma fila de carroções e dez de seus próprios homens. Longe de Mudd ele se provou mais acessível, e Arianne conseguiu cativá-lo e extrair sua história de vida. Sua maior vanglória era um tataravô que havia lutado com o Dragão Negro no Campo do Capim Vermelho, e cruzado o Mar Estreito com Açamargo. O próprio Corrente havia nascido na companhia, gerado em uma seguidora de acampamento por seu pai mercenário. Apesar de ter sido criado para falar a Língua Comum e pensar sobre si mesmo como westerosi, ele nunca havia pisado em qualquer parte dos Sete Reinos até agora.

Um conto triste, e familiar, pensou Arianne. A vida dele era toda a mesma, uma longa lista de lugares onde havia lutado, inimigos que havia encontrado e matado, ferimentos que havia sofrido. A princesa o deixou falar, de tempos em tempos o incitando com uma risada, um toque, ou uma pergunta, fingindo estar fascinada. Ela aprendeu mais do que jamais precisaria saber sobre a habilidade de Mudd com dados, Duas Espadas e seu gosto por mulheres ruivas, a vez em que alguém fugiu com o elefante preferido de Harry Strickland, Gatinha e seu gato da sorte, e os outros feitos pontos fracos dos homens e oficiais da Companhia Dourada. Mas no quarto dia, em um momento de guarda baixa, Corrente deixou escapar um “… quando tivermos Ponta Tempestade…”

A princesa deixou isso de lado sem comentário, apesar de ter lhe dado uma pausa considerável. Ponta Tempestade. Esse grifo é ousado, ao que parece. Ou então um tolo. A sede da Casa Baratheon por três séculos, dos antigos Reis da Tempestade por milhares de anos antes disso, Ponta Tempestade era tido para alguns como inexpugnável. Arianne tinha ouvido homens discutirem sobre qual seria o castelo mais forte do reino. Alguns diziam Rochedo Casterly, alguns o Ninho da Águia dos Arryn, alguns Winterfell no Norte congelado, mas Ponta Tempestade também era sempre mencionado. A lenda dizia que havia sido erguido por Brandon o Construtor para resistir à furia de um deus vingativo. Suas muralhas de barragem eram as mais altas e fortes em todos os Sete Reinos, quarenta a oitenta pés em espessura. Suas poderosa torre cilíndrica sem janelas tinha menos da metade da altura da Torralta de Vilavelha, mas se erguia ereta ao invés de em formato de degraus, com muralhas três vezes mais espessas do que aquelas encontradas em Vilavelha. Nenhuma torre de cerco era alta o bastante para alcançar as ameias de Ponta Tempestade; nem manganela nem trabuco poderiam esperar romper suas maciças muralhas. Connington pensa em armar um cerco? Ela imaginou. Quantos homens ele pode ter? Muito antes de o castelo cair, os Lannisters despachariam um exército para quebrar qualquer cerco. Essa maneira é desanimadora também.

Naquela noite quando ela contou a Sor Daemon Snad o que Corrente havia dito, o Bastardo de Graçadivina pareceu perplexo como ela. “Ponta Tempestade ainda era mantido por homens leais a Lorde Stannis quando último ouvi falar. Seria de se achar que Connington faria melhor em fazer causa comum com outro rebelde, ao invés de fazer levar a guerra a ele também.”

“Stannis está muito longe para ser de ajuda a ele,” Arianne refletiu. “Capturar um punhado de castelos menores enquanto seus senhores e guarnições estão fora em guerras distantes é uma coisa, mas se Lorde Connington e seu dragão de estimação pudessem de alguma forma tomar uma das grandes fortalezas do reino…”

“… o reino teria que levá-los a sério,” Sor Daemon terminou. “E alguns daqueles que não amam os Lannisters poderiam muito bem bandear para seus estandartes.”

Naquela noite Arianne redigiu outra nota curta para seu pai e fez Penas enviá-la com seu terceiro corvo.

Jovem John Mudd estivera enviando corvos também, ao que parecia. Perto to entardecer do quarto dia, não muito depois de Corrente e seus carroções os terem deixado, a companhia de Arianne foi encontrada por uma coluna de mercenários de Poleiro do Grifo, chefiada pela criatura mais exótica em que a princesa jamais havia posto seus olhos, com unhas pintadas e pedras preciosas cintilando em suas orelhas.

Lysono Maar falava a Língua Comum muito bem. “Tenho a honra de ser o olhos e ouvidos da Companhia Dourada, princesa.”

“Você parece…” Ela hesitou.

“… uma mulher?” Ele riu. “Isso eu não sou.”

“… um Targaryen,” Arianne insistiu. Seus olhos eram de um lilás pálido, seus cabelos uma cascata de branco e dourado. Mesmo assim, alguma coisa nele fez a pele dela se arrepiar.Era com isso que Viserys se parecia? ela se viu imaginando.Se sim talvez seja uma boa coisa que ele esteja morto.

“Estou lisonejado. As mulheres da Casa Targaryen são tidas como sem iguais no mundo inteiro.”

“E os homens da Casa Targaryen?”

“Oh, ainda mais belos. Apesar de que a verdade é que vi apenas um.” Maar tomou a mão dela na dele, e a beijou levemente no pulso. “Matabruma avisou sobre sua vinda, doce princesa. Ficaremos honrados em escoltá-la ao Poleiro, mas temo que tenha perdido Lorde Connington e nosso jovem príncipe.”

“Saíram à guerra? A Ponta Tempestade?

“Justamente.”

O lyseno era um tipo muito diferente de homem de Corrente.Este não deixará nada escapar, ela percebeu, depois de algumas poucas horas em sua companhia. Maar era eloquente o bastante, mas ele havia aperfeiçoado a arte de falar muito sem dizer nada. Quanto aos cavaleiros que haviam vindo com ele, eles poderiam ser mudos pelo quanto os homens dela conseguiram tirar deles.

Arianne se resolveu a confrontá-lo abertamente. No entardecer do quinto dia deles fora de Matabruma, enquanto montavam acampamento ao lado de ruínas tombadas de uma velha torre coberta de videiras e musgo, ela se acomodou ao lado dele e disse, “É verdade que vocês têm elefantes com vocês?”

“Alguns,” disse Lysono Maar, com um sorriso e um dar de ombros.

“E dragões? Quantos dragões têm?”

“Um.”

“Pelo que você se refere ao garoto.”

“O Príncipe Aegon é um homem feito, princesa.”

“Ele voa? Sopra fogo?”

O lyseno sorriu, mas seus olhos lilases permanceram frios.

“Você joga cyvasse, meu senhor?” perguntou Arianne. “Meu pai tem me ensinado. Não sou muito hábil, devo confessar, mas sei que o dragão é mais forte que o elefante.”

“A Companhia Dourada foi fundada por um dragão.”

“Açamargo era meio dragão, e todo bastardo. Não sou um meistre, mas conheço um pouco de história. Vocês ainda são mercenários.”

“Se lhe apraz, princesa,” ele disse, todo cortesia sedosa. “Preferimos nos chamarmos de uma irmandade livre de exilados.”

“Como quiser. Enquanto irmãos livres, sua companhia está bem acima do resto, eu admito. Mas a Companhia Dourada foi derrotada todas as vezes que cruzou para Westeros. Perderam quando Açamargo os comandou, falharam os Pretendentes Blackfyre, vacilaram quando Maelys o Monstruoso os liderou.”

Isso pareceu diverti-lo. “Somos pelo menos persistentes, você deve admitir. E algumas daquelas derrotas foram quase vitórias.”

“Algumas não. E aqueles que morrem em quase vitórias não estão menos mortos do aqueles que morrem em derrotas esmagadoras. Meu pai Príncipe Doran é um homem sábio, e só luta nas guerras que pode vencer. Se a maré da guerra se virar contra seu dragão, a Companhia Dourada vai sem dúvida fugir de volta pelo Mar Estreito, como já fez antes. Como o próprio Lorde Connington fez, depois que Robert o derrotou na Batalha dos Sinos. Dorne não tem esse refúgio. Por que deveríamos emprestar nossas espadas e lanças para sua causa incerta?”

“O Príncipe aegon é de seu próprio sangue, princesa. Filho do Príncipe Rhaegar Targaryen e Elia de Dorne, a irmã de seu pai.”

“Daenerys Targaryen é de nosso sangue também. Filha do Rei Aerys, irmã de Rhaegar. E ela tem dragões, ou assim os contos nos fariam acreditar.” Fogo e sangue. “Onde ela está?”

“A meio mundo de distância na Baía dos Escravos,” disse Lysono Maar. “Sobre esses supostos dragões, eu não os vi. Em cyvasse, é verdade, o dragão é mais poderoso que o elefante. No campo de batalha, me dê elefantes que posso ver e tocar e enviar contra meus inimigos, não dragões feitos de palavras e desejos.”

A princesa caiu em um silêncio pensativo. E naquela noite ela despachou seu quarto corvo para seu pai.

Publicado por AdoroCinema

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